Crítica | Era Uma Vez Um Sonho

Denis Le Senechal Klimiuc  - 09 de julho 2021 ás 12h00

Existe um momento neste Era Uma Vez Um Sonho (2020) em que o jovem J.D. (Owen Asztalos) e Mamaw (Glenn Close) estão em um carro, enquanto ele não se conforma com a vida que tem, e ela, como sua avó, o trata de forma firme, sincera e cruel como ele jamais estivera preparado, mas que surtiu o efeito que precisava em sua vida: o rumo de não cair do trilho que sua mãe mal conseguia se manter.

A cena, aliada ao talento de Close, é o tipo raro neste filme, que pesa a mão de Ron Howard em uma direção que mais parece um treinamento estilístico do que mais um filme de alguém veterano, dono de obras icônicas como Apollo 13: Do Desastre ao Triunfo (1995) e Uma Mente Brilhante (2001). Por outro lado, também é dono de Han Solo: Uma História Star Wars (2018) e A Luta pela Esperança (2005).

Com isso, Howard se prova um diretor talentoso, com diversas obras cômicas em sua filmografia, mas que também erra justamente quando passa do ponto no drama, algo que este filme tem de sobra, e pouco se salva quando o assunto é direção, roteiro, atuações e montagem.

Fonte: Reprodução/Netflix

O roteiro pesa a mão e Ron Howard não perdoa: exageros fazem parte do filme

Enquanto a cena do carro fica na mente do espectador como a prova viva de que Glenn Close consegue transformar água em vinho, o restante do filme traz a história de uma família disfuncional que jamais consegue encontrar um porto seguro. Com isso, quando J.D. cresce (Gabriel Basso) e se torna o possível candidato favorito a uma vaga de estágio do outro do país, suas raízes falam mais alto e ele se vê em um dilema: ajudar sua mãe ou cuidar da própria vida.

O questionamento, aliás, pareceria absurdo diante de qualquer família bem estruturada, mas a mãe, Bev (Amy Adams) tem problemas seríssimos com drogas, e jamais foi um modelo para J.D. e sua irmã, Lindsay (Haley Bennett). E é esse dilema que constrói todo o arco principal, que faz do filme um vai e volta no tempo.

Aliás, é justamente essa passagem constante de um tempo para outro que transforma a montagem de James Wilcox em algo que beira o esdrúxulo, pois cansa o espectador e não permite que ele se envolva jamais com nenhuma das versões de J.D. E, para completar a sensação de tempo perdido, as versões mais nova e mais velha de Bev atrapalham o desempenho de Amy Adams, que se torna caricata neste papel, o qual também é mal escrito.

Fonte: Reprodução/Netflix

Como Glenn Close se destaca em meio a um filme dramaticamente caricato

Contudo, o filme traz uma versão de roteiro que parece não finalizada, com arestas soltas em suas tramas, as quais tornam Bev uma personagem constantemente aborrecida; Lindsay mal aproveitada; J.D. nunca conseguindo desenvolver-se pela troca de atores; e uma Glenn Close que parece milagrosamente ter entendido as limitações do roteiro e agarrado sua personagem com unhas e dentes.

E, se Amy Adams conseguiu ficar apática diante de uma personagem limitada, que jamais soa como uma mãe que tentou cuidar dos filhos, mas que tem limitações claras de valores e caráter – vide o belo trabalho de Margo Martindale em Menina de Ouro (2005) – o grande problema foi mesmo a estrutura dos personagens em um roteiro que mingua estrutura.

Fonte: Reprodução/Netflix

Quando um bom drama deixa seu propósito de lado

Enquanto a promessa de que Era Uma Vez Um Sonho poderia ser um grande drama com performances arrasadoras, a premissa é um dos poucos pontos positivos que vale dar atenção. Com isso, nem um diretor renomado e elenco estelar salvam o drama apático que se tornou real.

Desta forma, o filme careceu de cuidados técnicos e narrativos, como a montagem e a trilha sonora exagerada de David Fleming e Hans Zimmer (como?), o que soa como uma encomenda malsucedida feita para a Netflix, ou, como é costume chamar um filme assim: Oscar bait, ou isca para o Oscar, em tradução livre. Ou seja, filme feito para encantar os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas nem isso deu certo.

Felizmente, algumas mudanças têm transformado a premiação em algo menos enfadonho nos últimos anos, ainda que sua audiência continue a cair. Talvez os membros da Academia e Ron Howard precisem de um treinamento sobre como não enganar o espectador com elenco estelar e história jogada ao vento. Pode ser que esse tipo de aprendizado surta mais efeito do que as lições de moral vazias deste filme.