Crítica | Encanto

Denis Le Senechal Klimiuc  - 25 de novembro 2021 ás 12h00

A força de personagens que comovem, mudam o espectador e transformam realidades geração após geração é um dos fortes da Disney. O estúdio, que coleciona protagonistas inesquecíveis, agora conseguiu trazer uma história latina para a sua aquarela, e é da cultura colombiana sobre a qual Encanto (2021) aborda, em especial sobre uma realidade na qual existem superpoderes e animais mágicos, e propósitos transformadores que modificam a dinâmica de suas histórias justamente porque aqui o espectador entra no sonho junto com a Disney.

Assim, a animação leva o espectador à fantástica casa de Mirabel (Stephanie Beatriz) e de sua família. Além de lar, e de ser uma bela criação do estúdio dando vida não só ao local como às cores que o compõem, aquela construção traz consigo magia antiga, passada de geração em geração, o que permite aos moradores e pertencentes à família um poder mágico único, como todos os superlativos relacionados a força, audição, velocidade e até mesmo controle sobre a fauna e a flora.

Naquela família Madrigal, cada um encontra o seu propósito a partir de determinada idade, e aqui está a primeira grande metáfora, pois é um espelho do que acontece às pessoas de todo o mundo: no início da fase adulta, todo mundo precisa abraçar uma carreira e segui-la até o fim, quer queira quer não. Ao melhor estilo de “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, a animação traz um olhar emocional à grande questão ao redor de sua protagonista: Mirabel não ganhou poder algum.

Reprodução/Disney

O respeito pela cultura latina

Dirigido por Jared Bush, Byron Howard e Charise Castro-Smith, Encanto é uma animação inusitada, pois sua chegada não foi alardeada, o que soa suspeito de algo criado pela Disney. Porém, para a surpresa de todos, esta é uma história tocante porque cria raízes na cultura latina e respeita seus personagens como algo que vai além de objetos criados para satisfazer a criançada. Todos têm importância na história de Mirabel, porque algo relacionado a ela acontece e aquela estrutura familiar, ou melhor, a casa em si começa a desabar.

Com o foco em Mirabel, a história traz basicamente a premissa sobre como a pressão social pode sufocar, tolher, diminuir alguém. Como a expectativa para isso ou aquilo fazem de todo indivíduo alguém automaticamente engaiolado no que os outros esperam dele. E mais: a protagonista está tão habituada com o desabrochar do restante dos membros de sua família que o seu próprio despertar não acontece, ou seja, seus poderes não chegam – e aqui está um exemplo difícil de ser visto, sobretudo em uma animação teoricamente infantil, sobre como a negligência de si mesmo pode desandar uma vida inteira.

E olha que a Disney aprendeu a fazer animações modernas com boas histórias, como é o caso de Frozen – Uma Aventura Congelante (2013) e Moana – Um Mar de Aventuras (2016), entre outros. Sem o selo Pixar, o estúdio começou a prestar atenção em seus produtos, e isso é ótimo para o espectador, que agora conta com duas vertentes no mesmo estúdio – três, se contar o Blue Sky, adquirido junto do pacote Fox.

Reprodução/Disney
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A musicalidade excepcional de Miranda

Como é de se esperar, uma animação como Encanto traz boas músicas, mas aqui há um grande diferencial, cujo nome parece estar na boca de praticamente todos os estúdios nos últimos anos: Lin-Manuel Miranda. Ele é o compositor das músicas de O Retorno de Mary Poppins (2018), do estúdio, mas também de A Jornada de Vivo (2021), Em Um Bairro de Nova York (2021), Hamilton (2020) e Tick Tick Boom (2021) – todos musicais, todos com o seu selo de qualidade, criatividade e refresco ao gênero.

Por isso, ao espectador que acompanha o trabalho de Miranda já sabe que encontrará três coisas nesta animação: o respeito pela cultura latina, melodias que grudam e agitam os mais novos, e pelo menos um número musical grandioso e emocionante. Sim, tudo isso está aqui, e o melhor é que o trio que dirigiu a obra fez questão de evidenciar a musicalidade, o que transforma esta obra em uma declaração aberta ao amor da Disney pelo gênero.

Além disso, Encanto é habilidoso porque cria personagens coadjuvantes memoráveis, como a delicada e, ao mesmo tempo, impetuosa mãe de Mirabel, Alma (María Cecilia Botero).

Surpresa boa e inesperada da Disney traz cenário colorido, rico em detalhes e músicas emocionantes com a grife Lin-Manuel Miranda
Reprodução/Disney

Surpreendente, comovente e divertido

Encanto é mesmo uma surpresa das boas. A animação entrega um roteiro ágil, que não se perde em meio à quantidade de metáforas levantadas em seu início, e tampouco se constrói pálida diante de outras obras do estúdio. Ao contrário: há personalidade de sobra, e é isso o que a torna tão divertida. Além disso, é uma forma de conectar a Disney ao restante do mundo, e faltam obras latinas de grande porte ao catálogo do estúdio.

Muito distante de Você Já Foi à Bahia? (1944), Encanto mostra ao mundo a força do sangue latino, e felizmente conta com Lin-Manuel Miranda para desassociar o público norte-americano de estereótipos que nunca fizeram sentido – e hoje fazem menos ainda. Além disso, o cantor, compositor, cineasta, enfim, o artista multitalentoso consegue trazer autenticidade através de suas canções, o que faz toda a diferença. E, se o espectador quiser conhecer Mirabel mais a fundo, é só pensar no seguinte: quem, afinal de contas, é o pilar daquela bela família?