Crítica | Eduardo e Mônica

Denis Le Senechal Klimiuc  - 20 de janeiro 2022 ás 12h00

Lançada em 1986, a canção Eduardo e Mônica se transformou em ícone de algumas gerações brasileiras, sobretudo aquelas que cresceram durante o auge da Legião Urbana, ou na prolífica década de 1990. Quem diria, então, que mais de três décadas depois a música seria levada às telonas, pelas mãos do cineasta René Sampaio, o mesmo que também adaptou Faroeste Caboclo (2013). Agora, Eduardo e Mônica (2020) finalmente chega aos cinemas, após ser adiado algumas vezes, em decorrência da pandemia de Covid-19.

Com o olhar que somente o cinema trás às adaptações, o que normalmente acontece com o texto baseado em livro não aconteceu aqui: não existem gorduras ou cenas que não se encaixam ao propósito, pois a base deste filme é uma canção de quatro minutos e trinta segundos. Com isso em mente, a grande pegadinha ficou à espreita do roteiristas, Jessica Candal, Matheus Souza, Claudia Souto e Michele Frantz: o que fazer para preencher o tempo com coerência?

A resposta é simples: dar repertório aos protagonistas, que agora ganham familiares e outros tons relacionados à personalidade de cada um. Eduardo (Gabriel Leone) é o jovem criado pelo avô conservador, que defende o regime militar que acabou de ser encerrado no Brasil (o filme se passa nos anos 1980). Por sua vez, Mônica vem de uma família abonada, de médicos, cuja criação dos pais pendeu para o lado artístico como complemento. O que eles não sabiam é que a estudante de medicina defenderia a arte como estilo de vida.

Reprodução/Paris Filmes

Um pouco de cada um

No jogo estabelecido pelas mãos de Renato Russo, a vida de dois jovens é trazida ao público como um cenário muito bem construído da geração que cresceu naquela década, sobretudo em Brasília, e que acompanhou, de uma forma ou de outra, as mudanças políticas, econômicas e sociais do Brasil. Assim, não é estranho observar o quanto os contrastes deste casal são gritantes em tela, talvez até maiores do que na canção, justamente porque agora ambos carregam suas histórias consigo.

Por isso, ao crescer em um lar simples, na reserva militar, junto do avô, Eduardo acabou se tornando o jovem idealista, sonhador e romântico, que não vê tantos defeitos em tudo, e que enche os olhos de brilho ao se deparar com uma mulher mais velha e, principalmente, mais madura. Com aparelho nos dentes e cabelos desgrenhados, sua vaidade é intelectual, mas a profundidade com a qual está acostumado apenas tropeça naquela que se tornaria sua alma gêmea.

Assim, Mônica é a filha da família rica que acabou de perder os pais, e que mudou o rumo do destino até então traçado para ela e seguiu em outra direção. Sim, ela fala alemão, estuda Balzac e gosta de arquitetura sob outro ponto de vista, além de estudar medicina, mas defende os direitos recém-adquiridos pelo povo brasileiro e fala de filosofia como recurso de mudanças sociais. Por isso, à primeira vista Eduardo é apenas o garoto bonitinho que ela não dá tanta atenção, mas a canção é respeitada neste ponto, e a festa estranha e a gente esquisita são apenas panos de fundo para que a história de amor de fato comece.

Reprodução/Paris Filmes

O lado politizado da história

Um dos pontos mais interessantes mantidos por René Sampaio é a sua lealdade aos fatos criados por Renato Russo. A composição traçou uma história de amor profunda, diferente e autêntica, sim, mas o cenário político por trás é uma das forças da canção e, agora, do filme. Com isso em mente, o espectador encontrará até mesmo fagulhas ao melhor estilo Romeu e Julieta, pois ambos os personagens figuram em lados opostos da história, e a beleza está no fato de o amor ser a única verdade que não toma partido, literalmente.

Desta forma, o cineasta traça uma Brasília cuja efervescência social coincide com o atual momento do país, de polarização política cujas visões se diferem como arqui-inimigos. Por isso, quando Eduardo fala que o grupo de jovens se manifestando é um “bando de vagabundos sem emprego”, é a atitude de Mônica que o faz enxergar que há algo além daquele país engessado dos anos de terror da ditadura. Por outro lado, é na noite de Natal que Mônica conhece o avô do rapaz, o Seu Bira (Otávio Augusto), e é o posicionamento dele que a afasta daquele lar.

Contudo, o roteiro foi ainda mais feliz na composição das metáforas e eufemismos discretos que fazem o papel de conexão entre ambos. Ao invés de apelar para clichês normalmente utilizados em comédias românticas, como o gatilho da reaproximação, o filme faz o caminho contrário: cria o distanciamento necessário para que Eduardo e Mônica não sejam um casal, já que não têm nada em comum. E acredite: apesar do final ser bastante conhecido, a torcida fica apreensiva quando as coisas começam a desandar à beira do terceiro ato.

Reprodução/Paris Filmes

Romance: ser ou não ser?

Com a política servindo de pano de fundo, e a música permeando a mente do espectador em cada fato que o casal consuma, Eduardo e Mônica é uma agradável experiência para os fãs da banda ou da música, mas também para os que serão introduzidos somente agora, 36 anos depois do lançamento marcante de Renato Russo. Porém, isso não faz desta uma obra sem resquícios do exagero das oito mãos que cuidaram do roteiro.

Se uma das grandes novidades do longa é apresentar a família dos protagonistas, e transformá-la na base para que ambos se reflitam em suas ações, é uma pena que o roteiro deixa de lado algo além do óbvio. O Seu Bira, por exemplo, tem pequenas cenas, sendo uma delas significativa, mas as dores do vai e vem dos personagens principais poderia ser diminuída para dar ao avô de Eduardo maiores justificativas do que uma caricatura militar. O mesmo se aplica à mãe de Mônica, Lara (Juliana Carneiro da Cunha), médica renomada que descobre uma doença. Aliás, o melhor amigo do protagonista também é desperdiçado, o que torna o Inácio de Victor Lamoglia um talento jogado fora, cujo desfecho é apressado.

Mesmo com os pequenos pontos levantados, Eduardo e Mônica é mesmo um romance, e a canção que definiu os casais apaixonados dos anos 1980 e 1990 enfim chegou às telonas com o respeito que merece.