Crítica | Duna

Denis Le Senechal Klimiuc  - 21 de outubro 2021 ás 16h00

Frank Herbert mudou a história da ficção científica em 1965, quando lançou Duna como a primeira parte do que viriam a ser seis livros sobre o mesmo universo. Dali saíram as óbvias inspirações de George Lucas, mas também o conceito mais audacioso de trazer ao gênero fortes nuances de política, ecologia e um jeito diferente de enxergar o futurismo – não existem robôs aqui. Por isso, a expectativa para assistir a este Duna (2021) de Denis Villeneuve era grande, e o público vai, enfim, compreender o porquê de Herbert ser tão importante para a literatura do século XX.

Aqui, o protagonista é Paul Atreides (Timothée Chalamet), filho do Duke Leto Atreides (Oscar Isaac) e de Lady Jessica (Rebecca Ferguson). Eles formam a família mais influente do universo, neste ano de 10.191 d.C., e a força de sua casta se resume, basicamente, ao comando de Leto sobre o planeta Arrakis, cuja especiaria existente ali, melange, é a mais valiosa do universo e, portanto, um poder e tanto para eles. Porém, aquela terra árida é habitada pelo povo Fremen, e por gigantescas minhocas que engolem o que encontrarem pela frente.

Reprodução/Warner Bros.

Os personagens são bem desenvolvidos

Ao aproveitar o roteiro do próprio Villeneuve, de Eric Roth e de Jon Spaihts, o filme abraça o formato de primeiro capítulo, o que dá espaço o suficiente para que os personagens sejam desenvolvidos como merecem. Assim, contando com um elenco estelar, cada qual cumpre a sua função na narrativa, que não poupa o espectador de cenários grandiosos o tempo inteiro, e a proporção, algo com a qual o cineasta está acostumado em outras ficções científicas, como A Chegada (2016) e Blade Runner 2049 (2017), não se assemelha a nada até então feito por ele, ou sequer pela versão levada aos cinemas por David Lynch em 1984.

Com isso em mente, o espectador mergulhará na mente de Paul, interpretado de forma precisa e audaciosa por Timothée Chalamet, que permite ao personagem, possivelmente caricato nos tempos modernos, o ar de segurança misteriosa, ao invés da presunção burguesa que tanto se vê em filhos de duques poderosos. O ator é hábil ao aproveitar o silêncio, e não suas falas, para dizer muito mais com seu olhar expressivo, e há um momento particular no qual ele corre grande perigo diante de Mãe Mohiam (Charlotte Rampling), no qual o duelo de interpretação é admirável.

Por sua vez, Oscar Isaac abraça seu personagem como mais um piloto (Poe Dameron na última trilogia Star Wars), porém, aqui ele também ocupa o espaço de homem mais influente do universo, e vive os perigos que o cargo traz consigo. Além dele, Rebecca Ferguson constrói uma matriarca forte e vulnerável, mas repleta de poder e atitude, algo que faz toda a diferença para a jornada do herói vivenciada por seu filho, Paul. E Jason Momoa, Josh Brolin, Javier Bardem e Zendaya completam o time estelar.

Reprodução/Warner Bros.

Com técnica maravilhosa, Duna tropeça no ritmo

Uma das coisas que mais chamam a atenção no filme é a magnitude que Villeneuve traz à obra. É clara a influência de Herbert e de sua criação o tempo inteiro, portanto, nada melhor que a tecnologia dos últimos anos para exaltar o material original. Desta forma, o cenário e a direção de arte, por exemplo, conduzem o espectador a uma experiência marcante, de personalidade própria, e o desenho de produção de Patrice Vermette é o responsável por tornar tudo mais palpável, e não apenas desenvolvido em CGI.

Por sua vez, a fotografia de Greig Fraser é um dos pontos altos do longa, pois soube retratar os detalhes mais amplos, com a pegada militar em diversos momentos – o Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgård) e os ambientes quase inóspitos ao seu redor soam organicamente ameaçadores, e o figurino ajudou a criar ao antagonista a aparência de um enorme inseto. Outro detalhe da fotografia que vale evidenciar é o cuidado de Fraser ao trazer as luzes para os ambientes fechados, e o respeito pela noite como parte da narrativa explorada por Villeneuve.

Para complementar, a trilha sonora de Hans Zimmer é imersiva, e mais uma vez o compositor criou uma obra que ajuda a contar a história do projeto no qual está envolvido. Porém, infelizmente nem tudo é bom o suficiente para tornar esta experiência excelente, e o roteiro tem o lado ruim bastante evidente. Ainda que permita aos personagens tempo de tela para desenvolverem seus respectivos arcos, o ritmo é o maior problema deste Duna. Como a construção de um primeiro capítulo fica completamente evidente em boa parte do longa, o resultado é que aparentemente existem pequenos ápices, mas nenhum interessante o suficiente para prender o espectador na completa imersão.

Reprodução/Warner Bros.

Primeiro capítulo com cara de primeiro capítulo

Sim, Duna é um primeiro capítulo com cara de primeiro capítulo, mas, diferente da literatura, ele precisa funcionar de forma independente, ainda que uma continuação já estivesse em vias de fato. O arco principal precisa funcionar, e ele cria uma boa atmosfera para Paul, mas o restante do longa é como uma composição de pequenos acontecimentos, e nenhum grande o suficiente para impor à experiência a satisfatória sensação de três arcos completos.

Ou seja, o filme parece o primeiro capítulo porque constrói a tensão, os relacionamentos, a iminência de perigo e todo o desenrolar de tudo o que começa aqui para uma próxima oportunidade, e isso pode fazer falta caso ela não se concretize. Portanto, como toda obra audiovisual, este longa deveria funcionar por si só, pela experiência básica de começo, meio e fim, mas acaba prometendo uma série de desfechos que não estão garantidos.

Assim, ainda que Villeneuve tenha sua segurança e talento como diretor, talvez a sua incursão no universo do escritor Frank Herbert tenha sido tão frustrante quanto para quem estava acompanhando seus livros e, em 1986, sentiu-se órfão quando o escritor faleceu, com apenas 65 anos. Um universo foi inteiramente interrompido lá e cá, e o ciclo se fecha outra vez. Será?

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