Crítica | Deserto Particular

Denis Le Senechal Klimiuc  - 13 de dezembro 2021 ás 12h02

Em Deserto Particular (2021), o cineasta Aly Muritiba cria uma experiência diferente ao espectador. Através do olhar de dois brasileiros tão diferentes quanto distantes geograficamente, existe uma discussão por trás desta história que vai de encontro ao atual momento político e social brasileiro. De um lado, o homem sulista heterossexual e cisgênero, policial afastado por agir com violência e culminar em assassinato. Do outro, uma mulher trans, nordestina e que precisa manter a aparência masculina durante o dia para que não seja morta.

Esta é a história de Daniel (Antonio Saboia) e Sara/Robson (Pedro Fasanaro), e como duas pessoas que se encontram em certo momento da vida significam tanto uma para a outra, sobretudo quando há afeto e respeito envolvido, ainda que provindo de resistência. O mais interessante deste longa, aliás, é a forma com a qual o cineasta trabalha seus dois lados da moeda.

Primeiro, o espectador vai conhecer Daniel, e saber que ele cuida de seu pai, policial aposentado, enquanto este já não consegue mais cuidar-se sozinho. Afastado de suas atividades na corporação, ele passa por um momento de busca de propósito, e o único encontrado é a paixão que sente por Sara, com quem troca mensagens sexuais e de afeto. Ao não receber mais mensagens dela, porém, Daniel fica completamente perdido e parte em uma longa viagem de carro de Curitiba a Sobradinho. Lá, sai em busca de Sara, com quem espera encontrar-se e consumar a relação tão carnal que ambos cultivaram virtualmente até então.

Reprodução/Pandora Filmes

O olhar de Daniel

A grande questão da viagem de Daniel, além de servir ao espectador como a essência de um road movie, ou seja, a transição de um estado de espírito a outro através de uma longa reflexão, é que ele não sabe com o que se deparará. Ao espalhar cartazes de Sara por toda aquela pequena cidade, e perguntar a diversos moradores sobre seu paradeiro, Daniel sente que está em busca de um fantasma. Em certo momento, se depara com um dos amigos de Sara (Thomas Aquino), e é através dele que o personagem descobre estar no caminho certo, mas que precisa seguir as regras de sua amada para que o encontro aconteça.

Quando acontece, o choque de Daniel é o reflexo do estado conservador de uma sociedade que não aceita o “fora do padrão”. Sara é uma mulher trans, e com ela estão seus medos e receios de não ser aceita, de não corresponder às expectativas. É isso o que faz de Daniel alguém em constante processo de aceitação, reflexo de boa parte do brasileiro conservador. Sara, então, também é Robson, e sua masculinidade precisa estar disponível para que consiga viver em paz, um contraponto à paz que sente quando é Sara.

Sara/Robson vive com a avó, e trabalha como carregador de frutas durante o dia, mas à noite, distante da realidade cruel com a qual precisou se acostumar desde que o pai lhe despachou de casa, com vergonha de sua existência, é como uma sombra que a persegue durante a luz do dia. Quando a lua toma conta do céu, a existência de Sara/Robson muda completamente, e o seu olhar ganha vida.

Reprodução/Pandora Filmes

A vida por Sara/Robson

Aly Muritiba é hábil ao construir seu filme primeiramente sob o ângulo de alguém tão machucado quanto Daniel, e o roteiro, também escrito por Henrique dos Santos, consegue criar humanidade em alguém que, sob outro ponto de vista, seria visto como o fácil antagonista desta história. Mas não é isso o que ocorre. Ao trazer o ponto de vista de Sara/Robson a partir da segunda metade do filme, o diretor oferece ao seu espectador a possibilidade de refletir sobre as duas existências, sabendo-se de que a segunda é naturalmente aceita pela humanidade contida nela, mas que a primeira é a socialmente aceita por seu padrão.

Ou seja, Aly Muritiba transforma a expectativa de quem assiste ao seu filme de maneira invertida, e isso funciona belamente em um longa-metragem repleto de significados. Afinal, ali está um homem que compõe grande parcela da sociedade atual e, do outro lado, uma mulher chamada de minoria e marginalizada por sua simples existência. Como se essas discussões não bastassem para fazer o espectador refletir, eis o maior argumento do cineasta: ambos os personagens só conseguem se comunicar através do diálogo, e ele só existe quando os dois estão na mesma linha de uma conversa; nenhum lado é superior a outro.

O resultado de Deserto Particular é uma experiência quase sensorial. A qualidade da interpretação de Antonio Saboia e Pedro Fasanaro é sublime. Saboia cria o homem machucado por não conseguir existir além daquilo que lhe foi designado, seja pelo pai ou seja pela corporação à qual pertenceu. Quando perde sua única base, começa a não enxergar mais sentido naquilo tudo. Por sua vez, Pedro Fasanaro traz uma interpretação complexa, baseada não apenas em suas expressões, que se transformam entre Sara e Robson, mas sobretudo no olhar. Seu personagem é tão complexo quanto intrigante, e é por isso que o espectador fica grudado na tela, à espera do desfecho de cada um.

Reprodução/Pandora Filmes

Uma obra linda de sentir

A riqueza de dois personagens tão bem construídos ganha, neste Deserto Particular, o olhar de um cineasta que enxergou além de quaisquer estereótipos e lugares-comuns de roteiros. Desta forma, os caminhos apresentados ao espectador podem surpreender, mas não da maneira imaginada. Para tornar tudo isso possível, além do excepcional roteiro, o filme é trabalhado de maneira quase artesanal pela montagem de Patricia Saramago, essencial para que ambos os lados da moeda funcionem.

Além disso, a fotografia é definitivamente de encher os olhos, pois faz da viagem de Daniel e da cidade de Sara/Robson a representação contrastante de cores nas quais o Brasil está mergulhado, em sua dimensão continental. Porém, é um detalhe impressionante que torna a fotografia essencial para a contação desta história: as cores e as luzes permitem às peles de Daniel e Sara/Robson uma textura densa, na qual a umidade fica presa como se os protegessem de todo o mal ao redor, ao mesmo tempo em que funciona como captação de luz. A textura de suas peles, aliás, torna a experiência de quem está contemplando o filme em algo riquíssimo – e igualmente belo.

Portanto, Deserto Particular é uma viagem junto de Daniel, mas também um convite de Sara/Robson a acompanhar sua trajetória. Como uma enorme epifania cujo resultado está na descoberta do poder do afeto, do respeito e da comunicação, é um grito de esperança verdadeiramente brasileiro.


Confira também nossa entrevista com o diretor de Deserto Particular, Aly Muritiba, que nos falou sobre o processo de desenvolvimento e sobre as mensagens do longa.