Crítica | Cowboy Bebop – 1ª Temporada

Fernando Giovanetti  - 08 de dezembro 2021 ás 12h05

Se tem um tipo de produção cinematográfica que já nasce sob suspeita, são os live-actions. E pudera, adaptar histórias de animes, com suas diversas qualidades peculiares, como a caracterização, as expressões caricatas que garantem um tipo único de humor e difícil de ser reproduzido nas expressões humanas, e o roteiro – claro – que não pode ser idêntico, mas também é importante não se tornar algo completamente alheio a obra original (alô, Dragonball Evolution!), entre tantas outras dificuldades. Tudo isso não é novidade, e a Netflix sempre soube disso quando anunciou sua versão de Cowboy Bebop.

Recapitulando, a obra original, de Shinichiro Watanabe, é um Seinen (animes que foram criados pensando no público adulto masculino) – com elementos de western espacial – que foi sucesso, mesmo, no ocidente (principalmente nos Estados Unidos), muito por suas características semelhantes às produções e questões cotidianas “do lado de cá” – apesar de contar sobre um futuro distópico.

A série original ainda aborda questões existencialistas, conta com humor e ritmo melancólico, mas que flutua bem entre o sarcasmo e a seriedade, com uma trilha sonora classuda – seu jazz que remete até um pouco aos filmes de 007 – e que tem seu elo mais fraco (porém ainda muito bom) no roteiro.

A missão para a Netflix, nesse sentido, foi claramente respeitar ao máximo todas estas características, e, também, tentar acrescentar um formato mais atual na história, e que foi acertado em muitas delas, mas errou feio em outras.

Vamos a elas, caubóis do espaço.

Reprodução/Netflix

O básico bem-feito

Pode parecer simples, mas os pontos acertados pelo live-action já foram alvos de críticas em diversas outras produções do estilo. Muitas características peculiares foram bem mantidas, como a impecável ambientação, fotografia, caracterização, trilha sonora – que contou com a volta da genial Yoko Kanno (da versão clássica) – e a escolha do trio de protagonistas, com John Sho (Spike Spiegel), Mustafa Shakir (Jet Black) e Daniela Pineda (Faye Valentine), que, facilmente, podem ser considerados os novos rostos oficiais do trio.

A “atualização” no formato

Não somente na atualização do formato, no quesito duração dos episódios (que eram de 20 minutos no anime e beiram os 50 no live-action) que vimos na produção da Netflix. A série, acertadamente, tentou desenvolver algumas questões e deixar pontas soltas para que a trama mantenha um potencial de ser explorada ainda mais profundamente que o anime, mas erra, e feio, no tom.

Para ilustrar, é como se o tom do anime fosse próximo da DC, enquanto o live-action nos entrega Marvel. Via de regra, as duas são boas? Sim! Mas a diferença é brutal no produto final. O humor, por exemplo, veste a capa do “pastelão” e lá fica por todo o tempo, deixando as características fundamentais da obra, como a melancolia, meio rasa.

Isso pode ser visto até na interação entre o trio de protagonistas, que, como citado, são ótimos, mas este aspecto descaracteriza a relação que conhecemos do grupo. O mesmo acontece com a personalidade dos dois antagonistas, Vicious e Julia.

Reprodução/Netflix

E é aqui que o bicho pega

Sobre Vicious, é uma linha tênue nas produções audiovisuais entre uma pessoa maquiavelicamente ambiciosa – que não mede esforços para ascender e conquistar seus objetivos – e um adulto mimado que decide explodir tudo por não saber lidar com rejeição. E é este segundo que a Netflix nos entrega (junto de um cabelo horroroso, diga-se), enquanto a obra original nos dá o primeiro.

Julia também não empolga. No anime de Cowboy Bebop, ela pouco aparece fisicamente, mas o mistério e as entradas chave é que são o grande charme desse “relacionamento” que ela mantém com Spike, e que só o personagem realmente conhece, deixando aquela imagem etérea e até platônica da antagonista para os espectadores.

No live-action, o plano foi dar a ela mais tempo de tela, mas a forma que a nova produção humaniza a antagonista a transforma em alguém frágil, submissa e basicamente sem sal. Em uma série onde temos Antônio, Carlos e Jobim, pode-se dizer que o que faltou na construção de Julia foi um pouco mais de sambalelê.

E agora, José?

A festa acabou? A luz apagou? O povo sumiu? A noite esfriou? Não necessariamente! O grande trunfo das mudanças do enredo foi justamente deixar a série aberta a inúmeras possibilidades. Não se ater exatamente ao roteiro e acrescentar novos elementos e camadas em cada um dos protagonistas abre margem para que a produção possa se recuperar, explorar o desconhecido e buscar a força que tem o anime, e que teve o hype até a véspera do lançamento.

No caso específico de Vicious, por exemplo, imaturidade se cura com evolução. Pode-se dizer que a Netflix, neste sentido, pecou pela falta e não pelo excesso. Portanto, o personagem (que é fundamental), tem espaço para crescer e chegar aonde estamos acostumados.

COWBOY BEPOP (L to R) ALEX HASSELL as VICIOUS and JOHN CHO as SPIKE SPIEGEL of COWBOY BEPOP Cr. GEOFFREY SHORT/NETFLIX © 2021

Mas por outro lado…

Todos os defeitos são perceptíveis somente aos olhos dos fãs (tirando as coreografias de luta), mas Cowboy Bebop da Netflix é um “novelão” e consegue entreter, principalmente, quem não conhece a obra.

Os caubóis de primeira viagem com certeza gostarão muito. Ela tem profundidade, convida a assistir à aventura seguinte e tem sua beleza – que, vale ressaltar, é diferente da elegância com a qual estamos acostumados, mas tem.

Enfim, o live-action de Cowboy Bebop é uma série que merece uma segunda chance ou temporada. Houve respeito e amor pela obra, e isso conta muito, apesar dos erros.