Crítica | Confissões de Uma Garota Excluída

Denis Le Senechal Klimiuc  - 15 de dezembro 2021 ás 12h25

Qual é a diferença entre a geração que viveu sua adolescência no início dos anos 2000, 2010 e agora, na década de 2020? Existem questões diferentes para lidar com os medos e anseios que assolam a mente de quem está nessa fase da vida? Não, e este Confissões de Uma Garota Excluída (2021), da Netflix, é um ótimo exemplo disso. O que há de diferente está, basicamente, nas relações familiares e na forma com a qual o jovem consegue escoar seus sentimentos negativos (e alguns positivos também): a banda larga generalizada.

Baseado em livro de Thalita Rebouças, que já foi adaptado para o audiolivro em 2018, e que agora ganha espaço no audiovisual diretamente no streaming, o filme é uma boa pedida para os jovens que estão naquela fase de tomar decisões sobre questões básicas, como qual é o seu lugar no mundo, como você precisa ser e quem é você, afinal, na fila do pão. Porém, também é excelente para os pais da atual geração, que já não têm tantos tabus quanto 10, 20 ou 30 anos atrás, mas continua livre para se questionar a respeito de quais caminhos a sociedade vai tomar.

E o bom do filme é que ele consegue unir os dois lados da moeda sem pautar sua história em uma sucessão de clichês. Ao contrário: ainda que sua protagonista seja uma underdog, Tetê (Klara Castanho) também é forte, objetiva e sabe bem o que quer, só não tem autoestima o suficiente para alcançar sozinha. É claro que, em meio aos questionamentos de sua adolescência, algo de ruim acontece e ela precisa adaptar sua vida: seus pais perdem muito dinheiro, e precisam mudar o estilo de vida. Vão morar na casa dos avôs maternos de Tetê, em outro bairro do Rio de Janeiro, e a jovem precisa se acostumar com uma nova escola.

Reprodução/Netflix

A paixão de Tetê vai além da escola

Enquanto Tetê precisa se adaptar a um ambiente hostil, ou que inicialmente parece ser hostil, a sua rotina em casa permanece a mesma, mas potencialmente mais irritante: toda a sua família parece se incomodar com seu jeito recluso, ainda que ele seja uma opção. Desta forma, há até mesmo a tentativa de sua avó (Rosane Gofman) de apresentá-la a um garoto para forçá-la a começar um relacionamento. Aliás, sua família é formada por underdogs que não reconhecem suas próprias existências à parte da sociedade: o pai (Alcemar Vieira) e a mãe (Júlia Rabello) perderam praticamente tudo com o desemprego, e o avô (Stepan Nercessian) parece ser a figura mais tranquila do grupo.

Mas, isso não quer dizer que Tetê não sofra, e a jovem entrou em uma espécie de anestesia diante de tudo o que passa com a família. Por sua vez, na escola ela encontrou a figura de dois amigos, Davi (Gabriel Lima) e Zeca (Marcus Bessa), cujas companhias são essenciais para que ela consiga manter-se sã. É claro que uma adolescente vai se meter em confusões sucessivas, e o resultado disso é o que o espectador presencia a partir do segundo ato: uma série de questionamentos típicos dessa fase da vida, que se mostram atemporais justamente por não perderem o foco nas dores de sua protagonista.

Por outro lado, o que mais importa é a evolução de Tetê como uma personagem sempre apaixonada, e que está em dúvida sobre para qual lado deixa seu coração seguir. Ao mesmo tempo, ela percebe que algumas coisas na vida precisam ser conquistadas sem que ninguém estenda a mão, e aqui está o mérito do roteiro da própria Thalita Rebouças, com a colaboração de Christiana Oliveira, Flávia Lins e Silva e Bruno Garotti, sendo este o diretor do longa.

Reprodução/Netflix

Os temas são universais

Aliás, Garotti é hábil ao jamais deixar que sua protagonista caia em uma situação boba, dispensável ou fútil. Apesar de ser uma ferramenta comum em filmes cujas vidas adolescentes estão sendo retratadas, sobretudo depois dos anos 2000, quando o subgênero se espalhou por todos os cantos, este longa-metragem não decepciona: seu foco continua sendo a protagonista, e quem está ao seu redor também consegue espaço de tela para ser desenvolvido, como Davi e Zeca.

Assim, os temas abordados são realmente universais, e podem ser facilmente identificados por adolescentes de todo o mundo: a primeira paixão, a autoestima em relação ao lugar de fala, os cuidados excessivos com o corpo e com a imagem projetada, a força da amizade em momentos de transição, o poder da família como a base de tudo e daí em diante. E aqui Klara Castanho é hábil ao construir uma personagem real, com defeitos tão notáveis quanto sua vontade de acertar, o que a humaniza de forma correta e transparente.

E, se as confusões e aventuras vividas por Tetê na escola chamam a atenção, por outro lado é mesmo o espaço para a família da protagonista que merece destaque. Isso porque, apesar de contar com os momentos mais engraçados do filme, a dinâmica familiar é tóxica, e a personagem principal demora a perceber isso, como acontece em muito mais famílias do que se têm notícias. Desta forma, o roteiro e a direção de Garotti merecem crédito por conseguirem amarrar muito bem o arco no qual a personagem vive dentro de sua casa.

Reprodução/Netflix

Confissões de Uma Garota Excluída é divertido e atemporal, merece ser visto

Ainda que conte com alguns problemas de ritmo, principalmente no que indica a composição de personagens secundários, como os antagonistas da história (um tanto quanto caricatos), o longa se favorece de um roteiro fresco: ele apresenta as questões universais e atemporais, sim, mas conversa com a atual geração através do uso da tecnologia, e de como ela pode ser nociva à saúde mental sem que a grande maioria sequer perceba.

Desta forma, Confissões de Uma Garota Excluída merece ser visto porque traz discussões importantes, mas não cai em demagogia ou excessos de clichês. É divertido, dinâmico e aproveita ao máximo o carisma de Klara Castanho e de sua família aparentemente tradicional, mas potencialmente disfuncional. Mais uma mão cheia de Thalita Rebouças, que sabe muito bem como conversar com o seu público.