Crítica | Cinderela

Denis Le Senechal Klimiuc  - 09 de setembro 2021 ás 12h00

A clássica história para as crianças, cujo resultado gerou uma das princesas mais conhecidas da Disney, chega a esta mais nova versão de Cinderela (2021), do Amazon Prime Video. Aqui, algumas situações clássicas são subvertidas, a fim de atualizar o conto, cujos princípios de sua época, cerca de 1812, era bastante diferente nas mãos de seus autores, os míticos irmãos Grimm. Desta forma, o espectador mais purista pode estranhar a empreitada, mas vale a pena conferir.

Isso porque diversas etapas da vida da protagonista são puladas, tendo como base a ideia de que quem assiste ao filme já conhece sua história. Desta forma, a partir daqui, a pobre Cinderela (Camila Cabello) vive no porão da casa que fora sua, mas que agora é comandada por sua madrasta, Vivian (Idina Menzel), e suas duas filhas egocêntricas e mimadas, Malvolia (Maddie Baillio) e Narissa (Charlotte Spencer).

Não tão má, mas tampouco um doce, Vivian simplesmente ignora a existência de Cinderela, tratando-a como algo mais parecido a uma casta ou sistema hierárquico do século XXI, e menos como madrasta. Assim, a jovem faz as tarefas de casa, mas vive trancada (por opção) em seu porão, costurando e sonhando em ter, um dia, seu próprio ateliê e comércio no centro da vila de seu reinado. Algo mais voltado ao empoderamento do empreendedorismo feminino.

Fonte: Reprodução/Amazon Prime Video

O espectador vai se divertir com as músicas

Porém, mais do que apresentar a uma nova versão do clássico dos irmãos Grimm, que por sua vez já havia se tornado outro clássico nas mãos da Disney, o filme traz uma vertente musical interessante, pois, como uma obra do gênero, as músicas são constantes e, para a surpresa do espectador, são letras e melodias pop, famosas nos últimos trinta anos e enraizadas na cultura e, aqui, no roteiro, como parte do que os personagens querem dizer.

Desta forma, enquanto Cinderela e Vivian cantarolam, o desenrolar da clássica história tem as intervenções do servidor do reinado, responsável pelas notícias do Rei Rowan (Pierce Brosnan) e de sua rainha, Beatrice (Minnie Driver), cantadas sob o divertido rap informacional, é claro que tudo nesta história é musicalizado, o que transforma o conto em um respiro moderno que cativa pelas escolhas acertadas das canções.

Contudo, o que acontece de mais interessante é que a protagonista, Camila Cabello, é uma cantora pop de fato, e isso faz toda a diferença para as suas canções funcionarem, enquanto a expert Idina Menzel não perde a oportunidade de brilhar. Aliás, a brincadeira fica clara quando o filme zomba, propositalmente, da ausência de talento musical de Pierce Brosnan, algo notório desde Mamma Mia! (2008). Por outro lado, Billy Porter é a Fabulosa Fada-Madrinha, completamente estilosa e repleta de significados em seu figurino.

Fonte: Reprodução/Amazon Prime Video

O elenco está preso a conceitos ultrapassados – ironicamente

Ainda que musicalmente seja interessante, e que atualize diversos conceitos, da Fada-Madrinha ao protagonismo da Cinderela, o filme erra por não se aprofundar nos novos conceitos, parecendo mais uma brincadeira do roteiro de Kay Cannon, que também dirige o longa, e que parece não ter conseguido trazer toda a audácia que pretendia, parando na metade do caminho e, portanto, amornando a relação entre o espectador e a obra.

Desta forma, este Cinderela é uma ironia, porque sua existência está completamente pautada nas mudanças de estereótipos, e como eles formaram a cultura, em especial a literatura e o cinema, sem passar por quaisquer reflexões por décadas. E, perdendo a oportunidade de chocar, o filme finge ser impactante, mas ao final dele é bem provável que seja esquecido por outra produção mais subversiva, ou até mesmo pela vontade em rever o clássico da Disney.

Aliás, ao fugir dos estereótipos que a própria Disney construiu, este longa empaca por não saber transformar sua Cinderela em algo maior do que uma releitura, o que ele se propõe desde o início, sobretudo ao trazer canções pop – algo que Moulin Rouge! Amor em Vermelho (2001) fez brilhantemente. O resultado, portanto, é uma tentativa que fica em cima do muro, ao melhor estilo chapa branca.

Fonte: Reprodução/Amazon Prime Video

Divertido, mas esquecível, eis um resumo dessa aventura musical

Tecnicamente eficaz, não há grandes arroubos musicais que tiram o fôlego do espectador, e é uma pena, pois a musicalidade constante e bem construída ao longo de toda a narrativa se daria bem com isso. Mas, em muitos casos, há burocracia em excesso nas cenas, ou seja, elas são executadas em montagens enormes que não levam a lugar algum.

Com isso, a Cinderela do Amazon Prime Video é morna, apesar de divertida. Mas aqui caberiam os excessos que um longa libertador exigira para funcionar, divertir e celebrar os novos tempos. Pena que ficou no reino tão, tão distante.