Crítica | Chucky – 1ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 12 de janeiro 2022 ás 12h30

Desde que chegou ao Star+, a primeira temporada de Chucky (2021) tem feito um caminho interessante. Mesmo após anos de Brinquedo Assassino (1988), existe tanto fôlego no personagem criado por Don Mancini que seus diversos filmes, e as extensões com a criação de sua própria família, não foram suficientes para acabar com as histórias do boneco possuído pelo espírito de um assassino em série. Aliás, como se a premissa não fosse absurda o suficiente, a pegada trash representa o que a visão de Mancini tem de melhor: um senso crítico sempre presente, mas acima de tudo que saiba rir de si mesmo.

Agora, porém, o fôlego é renovado pelas mãos do próprio criador do personagem, que assina como showrunner neste que tem sido sucesso com segunda temporada garantida. Até o momento, porém, a história envolvendo Chucky (Brad Dourif) nos dias atuais encontra a válvula de escape ideal para funcionar com a nova geração: ignorando a vida dos adultos, o personagem passa por tamanha crise de identidade que agora quer seduzir os mais novos, como crianças e adolescentes, ou simplesmente matá-los.

Assim, tudo começa como um bom filme do tal brinquedo: vendido em um brechó de garagem, ele é comprado por dez dólares pelo jovem artista Jake Wheeler (Zackary Arthur), que gosta de montar esculturas feitas de bonecas, enquanto tenta viver bem com seu pai, Luke (Devon Sawa). Este, porém, esconde as mágoas na bebida, o que o deixa sempre hostil com o filho, que sofre diferentes tipos de abusos em suas mãos. Enquanto isso, o restante da família de Jake é composto por Logan (também Devon Sawa), Bree (Lexa Dog) e Junior (Teo Briones), tio, tia e primo, respectivamente. Com a morte do pai em um acidente doméstico (ou melhor, em um eletrochoque improvisado por Chucky), Jake vai morar com o restante da família, e esse é só o começo de tudo o que começa a desandar.

Reprodução/Disney

História saudosista na medida

Em Hackensack, seus moradores se orgulham da segurança pela qual a cidade é reconhecida. Porém, de vez em quando ocorrem crimes bizarros, nos quais sempre estão envolvidas grandes histórias, uma mais escandalosa do que a outra. Quando Jake percebe que Chucky é um boneco com vida, sua rotina muda completamente, e aos poucos ele é seduzido a cometer diversos crimes, todos contra aqueles que o maltratam, como é o caso da filha da prefeita, e a garota mais popular do colégio, Lexy Cross (Alyvia Alyn Lind), justamente a namorada de Junior. Mas, por mais sozinho que seja, Jake ainda pode contar com o apoio de seu interesse amoroso, Devon (Bjorgvin Arnarson), filho da única policial da cidade que parece trabalhar, a Detetive Evans (Rachelle Casseus).

Nessa mistura de novos personagens, a série aproveita a primeira metade de seus oito episódios para desenvolvê-los, e criar repertórios bons o suficiente para que o espectador acredite neles. Porém, é claro que seguir os preceitos estabelecidos desde o filme original seria uma regra, afinal, ambos são trabalhos desenvolvidos por Mancini e, como tal, têm seus defeitos e qualidades. Como defeitos, está o rápido descarte de personagens sem justificativas plausíveis o suficiente para que suas mortes sejam sentidas, e a forma com a qual os próprios protagonistas desta primeira temporada se tornam dispensáveis após a segunda metade começar, quando Chucky e Tiffany voltam à ativa.

Reprodução/Disney

Elenco se diverte em cena

É justamente na segunda metade da temporada que as coisas se tornam extremamente divertidas. Desde os primeiros episódios, há uma série de inserções em formato de flashback, que contam a história do próprio Charles Lee Ray, o assassino que chegou ao boneco. De sua infância à adolescência, a série faz questão de apresentá-lo como um psicopata frio desde a tenra idade. Ao se tornar adulto, já na pele de Brad Dourif, com pesada maquiagem para rejuvenescê-lo, é possível compreender os diversos capítulos de sua história até chegar ao tempo atual, quando cai nas mãos daqueles adolescentes de Hackensack.

O mais interessante, porém, é acompanhar Brad Dourif como Chucky em todas as suas nuances, pois o ator é o responsável pela dublagem desde o primeiro filme, jamais abandonando-a desde então. Para quem assistiu ao A Noiva de Chucky (1998), saberá que a atriz Jennifer Tilly dá voz à boneca, e que tem a própria persona estabelecida como um ser humano possuído pela Tiffany. Além disso, é curioso ver a acompanhante de Tiff, Nica Pierce, interpretada por Fiona Dourif, filha do ator que dubla o próprio Chucky.

Desta forma, é visível que os veteranos estão se divertindo muito em cena, algo que o ex-ídolo teen Devon Sawa também faz, interpretando os gêmeos Luke e Logan (ele é o Gasparzinho), e alguns dos atores mais velhos. Por outro lado, os jovens ainda não estão confortáveis em cena, e o destaque negativo vai para o protagonista adolescente, Zackary Arthur, que parece estar entre uma dor de barriga e um aneurisma o tempo inteiro.

Reprodução/Disney

Tem fôlego para mais

Chucky tem o lado do terror muito bem desenvolvido, e a maquiagem e a produção de efeitos visuais merecem aplausos pela capacidade em manter os traços tanto das expressões dos bonecos quanto do lado sanguinário provocado por ele. Desta forma, além de manter coerência visual, a série dá um salto qualitativo em relação à técnica aplicada, e isso significa que a fotografia capricha a recriação visual de uma cidade pequena e, também, na volta ao passado desde os anos 1960.

Portanto, esta é uma primeira temporada promissora, que aproveita parte de seu potencial, e que não poupa o espectador do melhor que o famoso brinquedo assassino criou ao longo de mais de três décadas. Mas, também é uma ótima oportunidade para levantar a história para as novas gerações, e apresentá-la com muito fôlego para sobreviver por muito mais tempo. Pelo desfecho trazido à tona, é o tipo de série que traz conteúdo infinito, e faz isso muito bem, aproveitando as tonalidades nostálgicas de seu roteiro, e aproveitando a geração instagramer para provocá-la até, literalmente, a morte.