Crítica | Casa Gucci

Denis Le Senechal Klimiuc  - 24 de novembro 2021 ás 12h00

O poder da família Gucci é sinônimo de tradição. E a tradicional Casa Gucci (2021) é a prova de que o poder pula de mãos em mãos, e que a “famiglia” significa tudo até a página dois. Por isso, ao saber que a história de uma das marcas mais famosas do mundo seria adaptada aos cinemas, pelas mãos de ninguém menos que Ridley Scott, o mundo entrou em polvorosa.

O diretor de clássicos como Alien – O 8º Passageiro (1979), Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), Thelma e Louise (1991) e Gladiador (2000), dentre tantos outros, é conhecido pela exigência dentro dos sets, o que o torna alguém do tipo “ame-o ou odeie-o”. Mas a indústria cinematográfica reverencia Scott há algumas décadas, portanto, sua confiança soou promissora, sobretudo quando trouxe a protagonista para sua história, para viver Patrizia Reggiani: Lady Gaga.

Por isso, desde os primeiros minutos até o fim, ela é a estrela que se sobressai à casta Gucci, que cunhou seus passos desde a Toscana até o poder pleno em Nova York, e dali para o mundo. O grande problema é que o filme quer contar assuntos demais ao espectador, e tudo se torna uma pincelada enorme na vida daquela família, e de Patrizia, é claro, mas nada além disso.

Reprodução/Universal Pictures

A bagunça é generalizada

Casa Gucci não é um filme complicado. A linearidade de sua história é clara, e o roteiro de Becky Johnston e Roberto Bentivegna, baseado no livro de Sara Gay Forden, sofre de uma esquizofrenia incontrolável: ele quer ser tudo, desde a cinebiografia quadrada até o longa-metragem repleto de bordões, como “Primeiro vou tomar o meu espresso”, com o sotaque italiano cobrindo toda a bagunça.

Ao evitar enxugar a história para torná-la mais dinâmica, ou ao menos interessante, o longa adota a estrutura das atuais minisséries, que se permitem prolongar e discutir assunto a assunto justamente por terem tempo. Porém, com quase duas horas e quarenta minutos de duração, a epopeia rumo ao assassinato de Maurizio Gucci (Adam Driver) abandona elementos que ela mesma construiu ao longo do caminho, e isso incomoda porque o filme faz como se descartasse suas próprias possibilidades.

O melhor exemplo, talvez, seja o próprio relacionamento entre Patrizia e Maurizio, o qual ganha ótimo tempo no primeiro ato do filme, e com isso os atores conseguem ter suas personas desenvolvidas. Porém, ao inserir diversos personagens, Ridley Scott e seu roteiro tornam o processo bastante confuso: a história vai para todos os lados, e encontra tempo, ainda, para desenvolver o relacionamento indefinido de Patrizia com sua vidente, Pina Auriemma (Salma Hayek), com quem arquitetou todo o assassinato.

Reprodução/Universal Pictures

O outro problema, porém, é o elenco

Infelizmente, Casa Gucci encontra outro problema em sua história: o elenco. Formado por astros do primeiro escalão, ele conta com nomes como Lady Gaga, Adam Driver, Salma Hayek, Jack Houston, Jeremy Irons e Al Pacino. Mas é uma grande pena que cada ator esteja em um tom de sua composição, o que muitas vezes torna esse ou aquele personagem esquisito em cena: parece não pertencer à realidade do momento.

Lady Gaga, então, é de um magnetismo enorme, e o espectador fica preso à sua Patrizia em diversos momentos, mas a atriz parece não encontrar o tom, e muitas vezes sua interpretação fica semelhante ao belíssimo trabalho de Sharon Stone em Cassino (1995). Por sua vez, Adam Driver consegue criar um Maurizio contido, e é visível que ali está um homem que ficou tempo demais debaixo da sombra de quem o protegeu, mas, os maneirismos italianos do ator soam forçados em diversos momentos.

Já Jared Leto, que interpreta Paolo Gucci, é um caso a ser estudado. O ator entrega uma performance de método com excelência, mas a sua comicidade mais parece ter saído de um filme do Eddie Murphy, e isso prejudica, inclusive, a imersão do espectador. Porém, os grandes Jeremy Irons, como Rodolfo Gucci, e Al Pacino, como Aldo Gucci, são sublimes no pouco que entregam, algo que o calibre de seus talentos ofusca os demais.

Reprodução/Universal Pictures

Não vou dizer que foi ruim…

… Também não foi tão bom assim. Essa é a definição de Casa Gucci, um filme que conta com a produção da estirpe de Ridley Scott: fotografia de Dariusz Wolski minuciosa, figurinos que brincam com o tradicional e com o escrachado da marca, desenho de produção riquíssimo e detalhista. Tudo parece estar no lugar, e um diretor com o talento de Scott não faria menos. Mas, junto de seu trabalho de direção, está a montagem de Claire Simpson.

O filme peca por não encontrar elegância em seu desenvolvimento, e a montadora é a responsável por não conseguir costurar o roteiro esquizofrênico. O resultado, portanto, é um longa comprido demais, que perde seu ritmo em diversos momentos, e que poderia ter, facilmente, quarenta minutos a menos. Assim, este é o tipo de resultado que lembra o outro lado da carreira de Scott, com filmes medianos como Cruzada (2005), Robin Hood (2010) e Todo o Dinheiro do Mundo (2017).

Para o espectador, resta acompanhá-lo e se informar. Mas o filme está longe de se enquadrar em uma estirpe tão importante quanto a que carrega no título. Por outro lado, é mesmo tão confuso quanto a história dessa família, complicada e desunida.

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