Crítica | Big Mouth – 5ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 13 de janeiro 2022 ás 11h57

Em Big Mouth (2017-atual), o espectador mergulhará em um universo que não esconde, de forma alguma, o lado obscuro e potencialmente desastroso do crescimento durante a puberdade. Ao retratar a vida de um pequeno grupo com seus “monstros do hormônio”, a série levanta questões essenciais, pelas quais todo adolescente passa, uma hora ou outra, inevitavelmente ligadas às descobertas sexuais. Porém, nesta quinta temporada, os temas trazidos são ainda mais pesados, o que a torna o ano mais adulto do seriado até então.

Assim, a rotina de Nick Birch (Nick Kroll, um dos criadores da série), Andrew Glouberman (John Mulaney), Jessi Glaser (Jessi Klein) e Missy Foreman-Greenwald (Jenny Slate), os principais personagens da série, se desenvolve para questões que vão além das engraçadinhas descobertas das duas primeiras temporadas, e do desenvolvimento da sexualidade da terceira e quarta. Agora, o crescimento mostra o lado obscuro de quem está passando por tantas questões complicadas ao mesmo tempo e, ainda de quebra, precisa enfrentar as mudanças do próprio corpo.

Por isso, a quinta temporada traz o famoso bichinho do ódio, que pode ser uma suntuosa borboleta do orgulho e da vaidade, mas que, quando atacada, se torna uma minhoca que fala somente coisas negativas ao pé do ouvido. E, após os grandes impactos que lhes trouxeram humilhação e degradação de tudo o que acreditavam, Nick e Missy aceitam suas respectivas caraminholas na cabeça. O resultado é mais adulto do que as temporadas anteriores, e aqui a série marca uma divisão interessante, pois definitivamente ela foi feita para que adultos voltem aos seus passados, e não para que adolescentes a compreendam como uma oportunidade de refletir.

Reprodução/Netflix

Como Maurice e Connie são brilhantes

A partir dessa marca, Big Mouth prepara o espectador para o que talvez seja o desfecho da série, a partir do momento em que seus principais personagens encontram algumas das razões pelas quais as crises existenciais se aprofundam. Por isso, a linguagem utilizada nesta temporada é ainda mais difícil, porque potencializa os sentimentos negativos, e a narrativa com a qual tudo isso é criado poderá impressionar os mais novos, além de trazer uma brincadeira com uma figura da cultura pop em situação de sexo explícito.

Com isso em mente, o espectador adulto tem em mãos uma excelente oportunidade para refletir sobre a sua própria adolescência, o que é a proposta desde o início da série, e questões não só ligadas à sexualidade, mas também ao comportamento social e aceitação são trazidas à tela através de piadas sempre ácidas, apostando no humor criado pelos monstros do hormônio, e queridinhos do público, Maurice (também Nick Kroll) e Connie (Maya Rudolph).

Ambos os personagens transitam entre diversos adolescentes, e a experiência deles, quando estão em níveis semelhantes de desenvolvimento hormonal, fazem com que todos sejam contemplados pelas frases icônicas de Connie, que não se poupa de prazer em nenhum momento, e de Maurice, o sempre espevitado e inventivo responsável pelos pequenos pênis peludos de estimação. E, se você chegou aqui e achou toda e qualquer concepção absurda, é porque ainda não conferiu a dinâmica não só desses monstros hormonais com seus respectivos adolescentes, mas principalmente entre um e outro – conferem os momentos hilários de toda a série.

Reprodução/Netflix

Os jovens estão mais complicados

Enquanto isso, e enquanto Nick e Missy precisam lidar com seus respectivos monstros do ódio (sim, as minhocas cresceram e se tornaram criaturas maiores que dominam seus jovens), os demais adolescentes da série também passam por suas mudanças: Andrew descobre-se um jovem que adere aos mais diversos tipos de fetiches sexuais, e um momento de humilhação pública o fez perder o receio de ser julgado, e Jessi precisa lidar com a descoberta de sua bissexualidade.

Ainda que a temporada encontre espaço para que outros jovens consigam descobrir-se de acordo com seus próprios receios e anseios, um dos melhores pontos de Big Mouth é a quantidade de questões trazidas à tona: desde a rejeição parental ao excesso de cuidados, passando por questões que discutem o quanto a sociedade continua apontando o dedo para as mulheres, até a mistura de todos os monstros e personagens do imaginário desses adolescentes, que se misturam e se integram, um substituindo o outro, justamente por representar tal fase.

Com isso, os jovens estão mais complicados mesmo, e a intenção fica clara desde o início da temporada. As piadas continuam ali, mas são ainda menos censuradas (talvez nunca foram) porque a intenção é explicitar o que essa fase represente entre os adolescentes, e não a partir do ponto de vista dos adultos. Ironicamente, são adultos que escrevem e dirigem, é claro, mas existe uma brincadeira de metalinguagem em um dos últimos episódios, na qual o verdadeiro Nick Kroll conversa com o protagonista Nick, e ali está o clímax de toda a série pelo significado do bate-papo.

BIG MOUTH. (L to R) Nick Kroll as Lola and David Thewlis as Shame Wizard in BIG MOUTH. Cr. Courtesy of Netflix © 2021

A força do ódio: lema da temporada

Com tanto a dizer, a quinta temporada de Big Mouth é um deleite para quem gosta ou tem interesse em mergulhar nas neuroses da mente adolescente. Há muito o que se discutir a partir de cada episódio, mas é preciso ter coragem para aderir à atmosfera da série, pois esta afasta os mais conservadores. Desta forma, Nick Kroll, Andrew Goldberg, Mark Levin e Jennifer Flackett discutem a própria existência através da forma com que enxergavam o mundo, e felizmente isso é feito sem barreira alguma.

Aqui, então, há um arco principal: a força do ódio e como ele influencia as decisões de todo e qualquer adolescente a partir do momento em que passa a dominar suas escolhas. Mas, muito mais interessante do que tais comportamentos, foram os caminhos pelos quais todos eles passaram que deixou tudo claro ao espectador: uma rejeição mal resolvida, um baque sobre os valores, uma péssima influência. Detalhes pequenos, do dia a dia, que se tornam enormes na vida de quem ainda não encontrou parâmetros. O suficiente para que a tal força do ódio prevaleça.

Felizmente, há artistas corajosos que não se embasam em suporte nenhum para desenvolver suas obras. É assim que Big Mouth nasceu, e é assim que a série chega à sua quinta temporada com a mesma excelência das anteriores, sem medo de falar, de se expressar e de discutir os tabus da vida.