Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Denis Le Senechal Klimiuc  - 21 de novembro 2021 ás 15h00

Finalmente parece haver compreensão, por parte do estúdio que comanda a DC nos cinemas, a Warner, de que os personagens em quadrinhos dessa grandiosa editora merecem seguir seus próprios caminhos. Assim, nada mais justo do que respeitar um universo que os engloba, mas dar personalidade e liberdade às histórias é fundamental, como comprova este “Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa” (2020).

Por isso, então, uma personagem secundária ganha protagonismo com classe em um filme feito para divertir e, também, para desenvolver o talento de Margot Robbie como detentora de uma personagem que definitivamente entrou para a cultura pop. Pois, se nos quadrinhos Arlequina (Robbie) se destaca por seu jeito anárquico, rebelde, marginal e questionador, aqui não é diferente.

Assim, a adaptação da primeira aventura das Aves de Rapina se tornou um filme divertido, envolvente e que traz, de quebra, uma ótima mensagem sobre empoderamento. Então, para a personagem secundária que roubou a cena no pífio “Esquadrão Suicida” (2016), eis uma oportunidade e tanto agarrada e aproveitada ao máximo.

Reprodução/Warner Bros.

O talento de Margot Robbie e uma montagem dinâmica garantem a diversão

Nada aconteceria se Margot Robbie não tivesse agarrado a sua personagem, talvez com a mesma intensidade com a qual Hugh Jackman fez com Wolverine desde “X-Men” (2000). Por isso, o talento da atriz em trazer o sotaque do Brooklyn à personagem, além de sua espevitada forma de demonstrar seus sentimentos, ganha complexidade com o histórico trazido à tela.

Pois, enquanto o espectador acompanha o envolvimento de Arlequina com pequenos crimes, consequência de seu rompimento com o Coringa, o qual é apenas citado, a personagem literalmente domina a tela com a quebra da quarta parede, conversando com quem a assiste de um jeito bem parecido com o feito em “Deadpool” (2016), e a comparação é inevitável.

Porém, enquanto o anti-herói mascarado traz esse propósito a toda a história, conduzindo-a de acordo com sua própria narração, neste filme a protagonista quebra a quarta parede como uma espécie de artifício para tornar sua personalidade ainda mais tridimensional. Em consequência, o espectador acaba gostando mais dela, mas é retirado da atmosfera do filme tantas vezes que a experiência acaba tendo efeito contrário.

E, enquanto a narrativa escolha não é das melhores, ainda assim Robbie garante fôlego extra à personagem.

Reprodução/Warner Bros.

O efeito de uma protagonista na DC traz resultados positivos ao legado criado até então

Mas, além da Arlequina, o filme conta com outras personagens que merecem seus respectivos créditos. Cassandra Cain (Ella Jay Basco), por exemplo, rouba a cena pela espontaneidade juvenil de suas atitudes, mesmo que sempre esteja envolvida no crime; a Canário Negro (Jurnee Smollett) contagia pelo poder de sua voz, sendo a mais parecida com uma possível meta-humana; Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead) é a guerreira em busca de vingança; e Renee Montoya (Rosie Perez) soa como algo mais próximo de uma heroína, pois só quer justiça.

Com todas elas, é necessário haver uma montagem equilibrada, para que possam se desenvolver tranquilamente. E isso acontece. Jay Cassidy e Evan Schiff acompanham as peripécias da protagonista, além das personagens secundárias, em seu envolvimento com o crime, o que é contrabalanceado pelo bom vilão de Ewan McGregor, sempre ótimo em cena.

Porém, mais do que uma adaptação de personagem secundária que ganha protagonismo, é o empoderamento que traz à tona o potencial da DC em se diferenciar por suas criações nas HQs, sempre tão ricas e geralmente bem apresentadas. O poder por trás dos resultados atingidos por este filme, portanto, culminam em mais filmes com a participação da Arlequina, como uma espécie de mentora de novas personagens.

Reprodução/Warner Bros.

Aves de Rapina garante risos e entretenimento puro, ainda que force um pouco a barra

Com tudo o que o filme faz para divertir o espectador, Cathy Yan é uma diretora equilibrada do ponto de vista técnico, pois traz veracidade à ação a partir do momento em que dosa bem efeitos práticos e visuais. Desta forma, este “Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa” é uma sátira carismática, cuja protagonista merece, sim, mais fôlego para outras histórias.

Além disso, como a DC respeitou este filme de gênero, talvez a liberdade criativa aqui impacte de forma positiva as futuras produções, sem buscar por fórmulas já usadas (Marvel), e sim dando a oportunidade ao seu catálogo infinito de personagens que merecem um lugar ao sol dentro de seu universo cinematográfico.

Afinal, se a Arlequina pode patinar na cabeça das pessoas, cheirar cocaína livremente, criar uma hiena, explodir uma fábrica sem aviso prévio e roubar e fugir da polícia à vontade, é porque algo de bom essa personagem tem: o talento de Margot Robbie.