Crítica | Arcane – 1ª Temporada

Martinho Neto  - 02 de dezembro 2021 ás 13h00

Ainda que possa ser equiparado com toda a sorte de live-actions existente, afinal, cada um deve ser capaz de atingir o melhor resultado possível, dentro do que as mídias oferecem, as animações acabam sendo muito mais permissivas em suas possibilidades. Em outras palavras, obras animadas permitem que seus realizadores extrapolem suas ideias mais facilmente, transformando o gênero em um ambiente prolífico para conceber coisas extraordinárias. Para a felicidade tanto dos fãs dos jogos da Riot Games quanto dos simples admiradores de produções de qualidade, Arcane chegou ao catálogo da Netflix, e sem dúvidas já se credenciou como uma das melhores animações (e adaptações de games) dos últimos tempos.

Reprodução/Netflix

A série mergulha em dois embates principais que se misturam durante a narrativa. O primeiro conflito envolve as irmãs Jinx e Vi, personagens muito populares entre os jogadores de League of Legends, que acabam se tornando adversárias anos após vários traumas separarem seus caminhos. Ambas estão inseridas e diretamente ligadas ao segundo confronto, envolvendo as cidades-irmãs Piltover, marcada pela busca incessante pelo progresso e pela inovação, e Zaun, definida por uma profunda desigualdade social, assim como uma mágoa constante pelo destrato da “vizinha rica”. Note que não se tratam de premissas exatamente originais, mas o que diferencia a história contada em Arcane — e o que talvez seja o seu maior mérito — é a coragem de abraçar as decisões mais difíceis dentro do que foi apresentado inicialmente.

A mitologia contida no game original é muito vasta, de forma que seria impossível escolher o recorte ideal para trabalhar sem conhecer muito bem o material fonte. Não por acaso, a Riot Games selecionou Christian Linke e Alex Yee, dois funcionários antigos da casa e sem nenhum histórico em algo de fora da empresa, como criadores da série. Definida a história, era preciso encontrar o estilo de animação perfeito, e a escolha da Fortiche Productions não poderia ter sido melhor. Já qualificada por produzir alguns curtas animados anteriores para a empresa (inclusive de personagens presentes no elenco de Arcane), o estúdio francês entrega um traço tradicional na Europa, onde mescla produção em 3D com texturas em 2D, e cada frame se assemelha a uma linda pintura. Isso sem falar em toda atenção aos detalhes, ao peso dos movimentos, à força dos impactos e demais detalhes que contribuem para toda a experiência visual.

Reprodução/Netflix

Voltando à premissa, vale salientar também que nenhum personagem é, de fato, bom ou ruim. É possível entender seus conflitos internos e pressões externas, de modo que as decisões tomadas no decorrer da história podem ser até questionadas, mas é difícil negar a existência de toda uma construção anterior que sustenta tais escolhas. Silco, por exemplo, possui um visual que, de cara, entrega suas intenções “vilanescas”, com seu rosto esguio e cheio de cicatrizes. Mas ele não apenas possui um passado traumático — assim como praticamente todo morador de Zaun —, como acredita na causa pela qual luta. E o detalhe final que consagra o personagem é o amor paternal desenvolvido por Jinx, resultando em uma das cenas mais surpreendentes e de maior impacto emocional da obra.

Mas talvez nenhum dos personagens de Arcane se encaixe tanto nesse cenário como a própria irmã de Vi — a começar pelo conflito de personalidades observado na dualidade Jinx/Powder. E aqui vale mais uma vez destacar a ousadia dos produtores da série ao fugirem tanto de um possível final feliz, como também por evitarem criar um paralelo com a Arlequina do universo DC. Mostrando não ter medo de embarcar nas alternativas mais duras, o roteiro reconhece que todo o sofrimento de Powder atrelado à influência desequilibrada de Silco em sua criação precisaria gerar consequências sérias à mente da personagem. Mas a obra faz questão de expor, tanto visualmente quanto em suas ações, que a Jinx não tem só um parafuso solto na cabeça, mas sim carrega consigo a todo momento os fantasmas que a fizeram ser assim, seja dos seus amigos mortos no fim do Ato I, seja a culpa e o abandono que a assolam desde então.

Reprodução/Netflix

Enquanto a trama das irmãs tem toda a profundidade advinda do desenvolvimento individual dos personagens, o conflito entre Piltover e Zaun deixa um pouco a desejar nesse quesito, ainda que, para o que a obra precisa, seja mais do que o suficiente. É compreensível que algumas lacunas da história requeiram a contribuição do público, uma vez que não estamos vendo algo no estilo de Game Of Thrones, onde o conluio político ganha tanto (ou até mais) tempo de tela do que os personagens. Um exemplo disso é o conselho que comanda a cidade do progresso. A maioria dos membros parecem existir apenas para denotar uma pluralidade irrelevante, uma vez que a população geral do local nunca é citada diretamente, e tampouco as opiniões dos conselheiros são levadas em conta, pois parecem estar em uma condição de manipulação permanente, sem nenhuma voz ativa. Porém, o cerne da intriga e os impactos da tecnologia Hextech na política interna e externa funcionam bem, contribuindo para a complexidade da narrativa e adicionando ingredientes que certamente serão explorados em episódios futuros — como a influência de Noxus através da mãe da conselheira Mel.

Todo o cuidado com o desenvolvimento de cada personagem eleva Arcane ao posto de obra-prima, não só do gênero animação, mas do audiovisual como um todo — com o ápice dessa ousadia sendo mostrado na cena final, interrompida pelos créditos em um clímax máximo que imediatamente faz questionar se é possível esperar tanto tempo até que a já confirmada segunda temporada chegue ao catálogo da Netflix. Contudo, mesmo que a série fosse encerrada naquele quadro, passado o calor do momento, é inegável que a jornada até então é extremamente satisfatória. A Riot Games e a Fortiche Productions alçaram os padrões a um patamar que dificilmente será alcançado por outras produções. Enquanto muitos procuram diretores renomados e elencos de peso para suas adaptações de games, aprendemos que, às vezes, para chegar ao sucesso máximo só é preciso dar oportunidade para pessoas apaixonadas pelo material original, e corajosas o bastante para se desviarem dos caminhos fáceis.