Crítica | A Sogra Perfeita

Denis Le Senechal Klimiuc  - 14 de dezembro 2021 ás 12h00

Aos poucos, o cinema nacional percebe suas diversas possibilidades, e começa a agregar a diversidade brasileira como ela é: repleta de raízes, funcionando ao seu modo. É assim que o espectador se sentirá em A Sogra Perfeita (2021), filme que retrata a vida de uma mulher que batalhou tanto que conseguiu, e criou seus filhos praticamente sozinha, pagou suas contas, empreendeu, pagou seus funcionários, lidou com o preconceito e o racismo e, ainda por cima, encontra tempo para ser feliz. O pior é que muita gente acha isso absurdo, e aqui está o poder deste filme.

Neide (Cacau Protásio) é a protagonista de sua própria vida. Jamais permitiu que os problemas se sobressaíssem aos momentos bons, mas tampouco se vitimizou. Aliás, como a sua rotina bem demonstra, ela não tem tempo para isso. Dona de um salão de beleza em seu bairro, Neide poderia estar em qualquer lugar do Brasil, o que transfere a ela a simbologia necessária para fazer o filme funcionar. De quebra, ela ainda precisa lidar com a sociedade em um imóvel com seu ex-marido, Jailson (André Mattos), com quem divide o espaço para que ele tenha, também, seu negócio: uma oficina mecânica.

Mas, nem tudo está do jeito que deveria estar na vida de Neide, ou ao menos é isso o que ela acha. Seu filho mais novo, Fabio Junior (Luis Navarro), continua vivendo sob seu teto, dependendo de seus cuidados e até mesmo pedindo à mãe o “leitinho” diário, ou melhor, o seu achocolatado. Cansada de já ter criado sua família, e ansiosa por seu tempo sozinha, para curtir a vida como bem entender, Neide dá um jeito de apresentar seu filho à nova funcionária de seu salão, Ciléia (Polliana Aleixo). E é aqui que o filme agarra o espectador.

Reprodução/Paramount

A história é simples e funciona

Quando Ciléia e Fabio Junior se apaixonam, Neide começa a vislumbrar todas as possibilidades de sua vida sozinha, principalmente as aventuras sexuais que por tanto tempo manteve em seu imaginário – ou o simples ato de assistir a um filme na sala, esparramada no sofá, com seus doces preferidos em uma mão e o controle remoto na outra. Para sua sorte, Fabio Junior e Ciléia se apaixonam mais rápido do que o previsto, e ele pede a moça em casamento.

Feliz da vida, Neide arma um churrasco com toda a vizinhança, e é ali que ela descobre uma possível traição de sua futura nora, justamente com seu ex-marido. É a partir daqui, também, que o filme entrega ao espectador os momentos mais engraçados de seu roteiro, abraçando o talento cômico físico e debochado de Cacau Protásio, que não se poupa em nenhum momento. Ao viver aquela mulher, prestes a completar 45 anos, ela serve de reflexo a tantas outras que precisam da mesma liberdade para ser feliz, mas a crítica social dá espaço à comédia, e ela funciona bem porque consegue se enganchar no propósito do filme.

Desta forma, o roteiro de Bia Crespo e Flávia Guimarães entrega uma série de situações clichê, dos tipos mais usados em outros filmes cômicos, porém, o que faz toda a diferença para esta comédia nacional funcionar é a sua protagonista. Para início de conversa, Neide é uma mulher que não depende de nenhum homem para sua história funcionar, ou seja, se destaca de boa parte das produções nacionais do gênero, infelizmente para elas. Felizmente para o espectador, Cacau Protásio amarra as neuroses de Neide com as confusões causadas em Ciléia – e a pobre garota, tão doce e ingênua, jamais desconfia de sua futura sogra porque está mesmo apaixonada.

Reprodução/Paramount

O elenco de A Sogra Perfeita está naturalmente entrosado

Sem esconder que tudo não passa de um mal-entendido, o filme caminha usando os coadjuvantes como suportes engraçadíssimos de Protásio. Assim, Sheila (Evelyn Castro) e Eddy (Rodrigo Sant´Anna) são os funcionários da protagonista, que também servem como melhores amigos e confidentes. Sempre ao seu lado, ambos os atores entregam performances cômicas eficazes, que funcionam e evitam o exagero do improviso, o qual aqui não caberia em excesso.

Além disso, é impagável a química entre Protásio e André Mattos, pois os dois atores parecem ter saído de um relacionamento de anos mesmo. Por sua vez, Luis Navarro cria o homem-menino que precisa crescer, e Polliana Aleixo aproveita a construção de sua Ciléia para trazer uma garota que tem todo o potencial do mundo, desde que esteja acompanhada das pessoas certas.

Já a direção de Chris D´Amato agrega ao filme uma série de momentos de grande integração, tornando o elenco naturalmente entrosado. Sem grandes variações de cenários, o longa é esperto ao oferecer a casa de Neide como boa parte do refúgio necessário aos personagens principais.

Reprodução/Paramount

O desfecho une o lado bom do cafona romântico

Com os excessos que algumas comédias românticas traziam nos anos 1990, A Sogra Perfeita conclui sua história da forma mais romântica, cafona e sincera possível. Para quem se deixou levar pela vida de Neide, é bem provável que entoa a canção junto do elenco, com a boa surpresa trazida para indicar o quanto Fabio Junior e Ciléia compõem as duas metades de uma laranja. Para quem não conseguiu, porém, este pode ser o momento mais absurdo da experiência.

Porém, o filme é sincero em suas pretensões desde o início, e um refresco ao gênero através do talento de Cacau Protásio. Para fazer rir, é despretensioso. Para fazer se apaixonar, é convincente. E isso basta.


Confira nossa entrevista com Cacau Protásio e Polliana Aleixo sobre o filme A Sogra Perfeita.