Crítica | A Roda do Tempo – 1ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 06 de janeiro 2022 ás 10h30

A vida de uma Aes Sedai não é fácil. Em um mundo no qual o último Dragão acabou com boa parte da humanidade, causando destruição em massa em todas as partes do mundo, são elas que mantém tudo sob controle, no corpo de mulheres que aprenderam a canalizar seus poderes, reunindo energias da natureza e transmitindo-as através de suas mãos. Tudo isso para evitar que o homem, como gênero e como raça, não destrua o mundo novamente. Porém, com a possibilidade do Dragão Renascido, elas se preocupam com quem receberá o poder dessa entidade, seja de qual gênero for, e é essa a base desta primeira temporada de A Roda do Tempo (2021), do Amazon Prime Video.

Moiraine (Rosamund Pike) é uma Aes Sedai. Há anos ela perambula pelo mundo, procurando pelo Dragão Renascido, o que sente fortemente ter encontrado na vila Dois Rios, em meio a montanhas e muita natureza. Ali, ela desconfia que cinco jovens carreguem poderes que podem caracterizá-los como a tal poderosa entidade, e é ali que sua chegada causa o pontapé inicial para que tudo mude: a realidade dos cinco, e a sua própria. Mas, principalmente, a do mundo, que aos poucos deixa de ser o mesmo pela chegada do Dragão Renascido.

A partir da chegada de Moiraine, e de seu fiel escudeiro, Lan Mandragoran (Daniel Henney), Nynaeve (Zoë Robins), Egwene (Madeleine Madden), Rand (Josha Stradowski), Perrin (Marcus Rutherford) e Mat (Barney Harris) vira do avesso. Tudo o que eles acreditavam é colocado à prova, e tudo o que carregavam consigo, como parte de seus valores, é transformado em argumento para que nada mais seja como antes. Nesta primeira temporada, então, o início da jornada é iniciado de forma brutal, com a chegada de trollocs, espécie de minotauros do mal, os quais dizimaram Dois Rios e, com isso, forçaram a fuga do grupo o mais rápido possível.

Reprodução/Amazon Prime Video

A concepção do universo

O universo idealizado por Robert Jordan, autor de 14 livros, sobre os quais esta série é baseada, é rico em alegorias políticas e, o que talvez seja ainda mais interessante neste momento, é a sua discussão sobre o poder do mundo na mãos das mulheres, após ser destroçado pela ganância masculina. Por isso, a expectativa para a primeira temporada de A Roda do Tempo era alta, e ela foi trazida em parte para os oito episódios.

Isso porque a adaptação foi feita com orçamento claramente limitado, o que não seria problema algum, caso o criador, Rafe Judkins, não optasse por uma linguagem tão convencional. O passar do tempo, por exemplo, é arrastado em diversos episódios, e isso faz com que a série demore a engrenar, e que os personagens não se comuniquem de maneira eficaz, o que causa certa artificialidade no roteiro. Por isso, tal adaptação merece ser conferida, sobretudo por quem gosta de literatura de fantasia, mas vale o aviso: não é o modo mais interessante de entrar no gênero, e o meio do caminho escolhido entre O Senhor dos Anéis (2001-2003) e Game of Thrones (2011-2019) realmente fica parado, indeciso sobre para qual lado seguir.

Com isso, a concepção deste universo é, sim, muito interessante. Assistir às Aes Sedai comandarem o mundo e, com diversas críticas embutidas sobre a forma com a qual a humanidade enxerga a liderança feminina, as sutilezas funcionam e fazem pensar. Por outro lado, a aventura dos cinco jovens, juntos de Moiraine e Lan, não engrena e acaba caindo no lugar-comum.

Reprodução/Amazon Prime Video

O elenco em contraste

Um dos fatores que deixa esta primeira temporada de A Roda do Tempo tão dividida qualitativamente é o seu contraste em relação à qualidade do elenco. Rosamund Pike, que também é produtora, entoa de forma brilhante a misteriosa dubiedade de Moiraine, e o espectador demora muito a receber todas as informações sobre quais são suas verdadeiras intenções. O resultado disso é a oportunidade que a atriz tem de brilhar, e trazer a força de seu olhar, tão marcante em toda a carreira, como em Garota Exemplar (2014) e Eu Me Importo (2020).

Por outro lado, é justamente em relação aos cinco jovens atores, que fazem os heróis em suas jornadas iniciais aqui, que a série não engrena. Apesar do esforço, o contraste entre as atuações deles e de Rosamund não funciona, pois não parecem compreender a imensidão da aventura na qual seus personagens estão envolvidos, sempre apáticos a tudo, o que é diferente em número, gênero e grau do que a protagonista faz. Felizmente, porém, há participações que merecem destaque, como a de Sophie Okonedo e de Kate Fleetwood.

Reprodução/Amazon Prime Video

O resumo da ópera: poderia ser muito mais

No final das contas, o esforço de Rafe Judkins vale a pena. Os efeitos visuais convencem, e as tomadas aéreas são sempre belíssimas. Em diversos momentos, é visível a utilização de efeitos visuais que não conversam com os cenários, e ali a fotografia acaba pecando pela artificialidade, o que pode tirar o espectador de dentro desta imersão. Por outro lado, os figurinos são sempre interessantes, como é o caso da personalidade dos cinco jovens transmitida por eles, e das Aes Sedai, dividida hierarquicamente por cores.

Assim, A Roda do Tempo é uma estreia singela, promissora e que não alcança todo o potencial, mas que convence como uma boa série, abrindo margem à curiosidade do espectador para, quem sabe, se tornar um leitor de Robert Jordan. Nos livros, a roda deve girar mais rápido.