Crítica | A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais

Martinho Neto  - 03 de novembro 2021 ás 12h00

O cinema brasileiro é formado por diversos momentos, onde alguns gêneros predominam na preferência do público, enquanto outros sofrem para encontrar uma audiência cativa. Um exemplo deste último caso é o true crime (ou crime real), cujas obras, diferente daquelas apenas inspiradas na realidade — como a bem-sucedida franquia Tropa de Elite —, acompanham casos que aconteceram de fato, além de trazer algo a mais que justifique as suas existências. É nesse contexto que surgem as produções A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais, que chegaram ao catálogo do Amazon Prime Video após sucessivos adiamentos devido à pandemia. Porém, esse algo a mais tão necessário está em falta nos dois filmes.

É fato que o gênero vem ganhando mais adeptos nos últimos anos, com diversas produções de destaque surgindo, como O Caso Evandro no Globoplay e Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime na Netflix. Assim, era questão de tempo até que um evento tão marcante para a sociedade brasileira como o caso Richthofen fosse adaptado para o audiovisual. Como diferencial, nada relacionado à história ou elenco — embora a presença da protagonista Carla Diaz no reality Big Brother Brasil certamente atraiu público. A ideia era inovar na estratégia, lançando dois filmes diferentes que contariam a mesma história, cada um sob o ponto de vista de um dos envolvidos: Suzane von Richthofen (Diaz) e Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt).

Crítica | A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais
Reprodução/Amazon Prime Video

À primeira vista, a ideia parece até interessante, mas basta pensar um pouco para notar os problemas. Caso a previsão inicial de lançamento nos cinemas se concretizasse, imagine a logística de fazer com que o público assistisse duas sessões do “mesmo filme”. Ingresso mais barato? Sessões intercaladas? Muito marketing envolvido? São muitas possibilidades a serem levadas em conta, de forma que a estreia via streaming parece ter sido uma dádiva para a produção. Contudo, após quase três horas de duração, é possível entender que o problema real nunca esteve na estratégia de lançamento, mas sim no próprio conteúdo dos longas e na forma como foram executados.

Ambos se iniciam com a mesma cena, representando o que ocorreu imediatamente após os assassinatos dos pais de Suzane, em 31 de outubro de 2002, com a chegada da polícia no local. Depois disso, as tramas se transportam para 2006, quando Suzane, Daniel e seu irmão Cristian (Allan Souza Lima) estão sendo julgados pelo crime. A partir daí, o que vemos em A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais são duas progressões da mesma história, narradas sob os pontos de vista dos principais suspeitos. Entretanto, os roteiros assinados por Ilana Casoy e Raphael Montes são incapazes de acrescentar qualquer tempero que faça o espectador pensar ou até mesmo se importar com o que está sendo mostrado.

Reprodução/Amazon Prime Video

Com a desculpa de serem retratos isentos e baseados exclusivamente nos testemunhos dos réus, as obras falham tanto em representar a verdade tal qual um documentário (uma vez que as falas de Suzane e Daniel foram julgadas igualmente falsas), como também fracassam em trazer qualquer liberdade criativa em prol de um peso dramático para as histórias. O filme sob o olhar de Suzane busca inocentá-la e vilanizar seu namorado na mesma medida que o longa sob o ponto de vista de Daniel faz o exato oposto. No fim, é como apartar uma briga entre duas crianças e ter apenas as versões de cada uma para decidir quem está certo — ou seja, impossível. Algo muito mais relevante e completamente esquecido foi o testemunho do irmão de Suzane, Andreas von Richthofen (Kauan Ceglio), essencial para a resolução do caso na realidade, porém totalmente apagado nas duas produções.

A falta de profundidade (ou até mesmo razão de existir) dos filmes é uma pena, não apenas pelos fãs do gênero, que encontram muito material com grande potencial na criminologia brasileira, como pelos atores, em especial os protagonistas, que aparentam se entregar aos papéis. Enquanto Carla Diaz se esforça para emular os possíveis trejeitos chamativos de Suzane, tanto na sua versão mais introspectiva e inocente quanto na alternativa quase psicopata, Leonardo Bittencourt busca entregar suas falas com naturalidade, embora o seu desempenho quando levado ao papel de vilão se mostre um pouco melhor que o de mocinho.

Crítica | A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais
Reprodução/Amazon Prime Video

É válido salientar que a tentativa de trazer histórias e gêneros que busquem se diferenciar do que já está saturado na indústria do cinema nacional (como as inúmeras e repetitivas comédias) é notável. Contudo, antes mesmo de se pensar em produzir algo, é preciso entender qual a razão de existir da obra, e se isto é o suficiente para agradar ao público. A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais parecem existir unicamente pela “necessidade” de adaptar uma história tão emblemática para os brasileiros antes que alguém o faça. Mas da forma como foram executados, o sentimento final é que mesmo assistindo a dois filmes, ainda estamos vendo uma narrativa incompleta, e o que falta é justamente esse algo que mexa com a mente do espectador, de forma que é mais gratificante compreender a história em uma reportagem ou livro sobre o assunto.