Crítica | A Jornada de Vivo

Denis Le Senechal Klimiuc  - 01 de setembro 2021 ás 14h00

Lin-Manuel Miranda é chamado por muitos de “o tesouro americano”, pois, ao reunir o lado musical da cultura pop em toda a sua carreira como ator de teatro, alcançou Hollywood pelo talento de suas composições e atuações, e conseguiu seu espaço no cinema por conseguir traduzir muito bem a linguagem dos palcos para as telas, como fez tão bem em Em Um Bairro de Nova York (2021) e nesta animação da Netflix, A Jornada de Vivo (2021).

Ao interpretar um pequeno jupará, espécie de símio que vive no México, o ator dá voz e tom às diversas canções que o animal entoa, convivendo com seu dono e grande amigo por anos, Andrés (Juan de Marcos González), pelas ruas de Havana, em Cuba, enquanto cantam, tocam e dançam para os pedestres e turistas, animados pelos embalos de suas melodias, ritmados pelas belíssimas letras que parecem cantar diretamente de seus corações.

Porém, quando Andrés recebe uma carta de seu primeiro amor, Marta Sandoval (Gloria Estefan), ele parece compreender que as décadas que passaram à distância são necessárias para modificar completamente o significado de suas vidas, apesar de tanto tempo. Assim, Andrés recebe um convite para assistir ao último show de Marta, em Miami, e se prepara para embarcar em uma viagem para recuperar o tempo perdido com o grande amor de sua vida. Porém, é Vivo quem vai precisar cumprir essa tarefa.

Fonte: Reprodução/Netflix

A jornada de um herói à redenção de seu mentor

Em poucos minutos, o espectador precisará se despedir de Andrés, e o sentimento é parecido com o do espetacular Up – Altas Aventuras (2009). A partir de então, Vivo se vê sozinho sem seu grande companheiro de vida, e é justamente a presença de Gabi (Ynairaly Simo), sobrinha-neta do cantor, que traz certo conforto ao protagonista, sobretudo porque ele enxerga na garota a possibilidade de entregar a música que Andrés cantaria para Marta.

A partir de então, a animação ganha as tonalidades de uma aventura infantojuvenil, e isso traz diversas possibilidades ao filme, pois conversa diretamente com os mais novos, o que é evidente ser seu principal objetivo, tendo em vista a composição visual dos personagens. Desta forma, enquanto Vivo precisa lidar com os fantasmas de seu luto, ele também precisa lutar contra o medo de se aventurar, e Gabi é a parceira ideal para isso.

Então, ao invés de ganhar sua jornada do herói para alcançar seus objetivos, Vivo é o tipo de protagonista que conta com o altruísmo como principal ferramenta para viver, e a dublagem de Miranda se encaixa perfeitamente à personalidade do personagem. Com isso, as aventuras de Vivo poderia ser o nome do filme, se não fosse por seu terceiro ato, ou terço final do longa.

Fonte: Reprodução/Netflix

Belas composições encantam e divertem

Na jornada para chegar a Miami, e para enfim conhecer Marta, o protagonista passa por diversas provações que, sob a batuta de Kirk DeMicco e Brandon Jeffords, ganha aspectos politicamente corretos, como a transformação das pequenas vilãs em um grupo de meninas que, na verdade, não sabe exatamente o que está fazendo, e que rapidamente se recompõem junto da protagonista com uma só aventura em comum, perdendo boa parte de suas identidades.

Outro fator que pode incomodar os mais velhos é o fato de a mãe de Gabi, Rosa (Zoe Saldana), se comportar como o tipo de personagem distraído que só aparece nas horas mais graves, o que resultaria na filha sempre à margem do padrão social. Porém, o roteiro de DeMicco e Quiara Alegría Hudes, esta parceira de Miranda em outros projetos, não parece se incomodar com detalhes que sejam excessivamente realistas, e ter uma espécie de símio perambulando entre dois países é o suficiente para causar a chamada suspensão de descrença no espectador.

O resultado, portanto, será satisfatoriamente proporcional ao embarque na trama por parte de quem a acompanha. Por sua vez, as belas composições encantam e divertem porque oferecem músicas tocantes, cujas letras são tão significativas quanto a realidade de quem vive em um país como Cuba, e isso entoa certa política e olhos para as relações econômicas entre Estados Unidos e a terra de Vivo, ainda que não seja nada além de uma atmosfera trazida pelo roteiro.

Fonte: Reprodução/Netflix

O roteiro é simples, mas o terceiro ato compensa

Com uma escrita simples, mas composições complexas e melodias deliciosamente instrumentalizadas, este A Jornada de Vivo diverte, ainda que não traga grandes experiências cinematográficas. Porém, por mais claras que sejam as intenções do roteiro, é mesmo o desfecho grande responsável por conseguir emocionar as diferentes idades que acompanharam o filme até então.

Com o reencontro de Marta com a memória de Andrés, existe uma singularidade que transmite a doçura daquele amor através da alta carga nostálgica, e isso pega em cheio os românticos de plantão. De quebra, o talento de Lin-Manuel Miranda na composição faz a imersão nesta jornada ainda mais profunda, um presente para os sentidos dos espectadores mais apaixonados.