Crítica | A Família Addams 2: Pé na Estrada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 17 de novembro 2021 ás 12h00

O sucesso da animação A Família Addams (2019) foi o suficiente para que a história dos personagens mais peculiares da cultura pop fosse continuada. Não deu outra: agora, A Família Addams 2: Pé na Estrada (2021) é a prova de que a fórmula do sucesso consegue trazer para a amenidade até mesmo os costumes macabros e escabrosos, o que significa basicamente duas coisas: os personagens criados por Charles Addams não são mais os mesmos; e o politicamente correto tomou conta de tudo.

Isso porque uma das características dos personagens era a acidez no senso de humor, que escrachava a família tradicional norte-americana desde a série dos anos 1960, e que ganhou notoriedade com as gerações que vieram depois com os dois filmes encabeçados por Anjelica Houston e Raul Julia, em 1991 e 1993. Até então, todas as produções focavam em como uma família supostamente disfuncional tem muito a ensinar aos que se consideram normais e, portanto, dignos de julgar.

Aliás, a primeira animação desta franquia também contou com esse olhar. Porém, aparentemente tudo perdeu sentido a partir do momento em que o argumento para uma continuação indicou a vibe Férias Frustradas (1989) e deixou de lado qualquer aspecto gótico em prol de uma pegada mais pop, infantil e aventureira. Agora, então, a família inteira viaja pelos Estados Unidos, passando por diversos pontos turísticos icônicos do país – tudo para despistar o possível erro que levaria Vandinha (Chloë Grace Moretz) a ser de outra família.

Reprodução/Universal Pictures

O passado vem à tona e a identidade é questionada

Enquanto o espectador viaja junto da família, o filme faz questão de apresentar diferentes lugares como complementos da personalidade de cada membro. Ou seja, agora Mortícia (Charlize Theron) e Gomez (Oscar Isaac) precisam de tempo para resolver a questão que parece atormentar a todos, menos a principal envolvida: seria mesmo Vandinha de outra família? Ou tudo não passa de um terrível engano? Com tais questionamentos, eles vão do Grand Cânion até o concurso de beleza que serve de gota d´água.

Enquanto isso, Feioso (Javon Walton) quer provar que consegue chegar no sexo oposto, e o Tio Chico (Nick Kroll) está passando por alguns problemas biológicos, pois seu corpo está se transformando e, aparentemente, mudando para uma criatura marítima. Tudo isso acontece enquanto estão no carro da família, que aqui substitui um trailer, sendo levados pelo Mãozinha. Para completar, há a participação do Primo It (Snoop Dogg) e da Vovó (Bette Midler).

Porém, o motivo pelo qual todos passam a fugir, ao invés de ir para a boa e velha Salem curtir o Dia das Bruxas, é que há a perseguição de Cyrus Strange (Bill Hader), o qual contratou o Sr. Mustela (Wallace Shawn) porque acredita que Vandinha seja a filha que foi trocada na maternidade, e que sua genialidade seca e objetiva seja a maior prova de que ela não merece passar o resto de seus dias ligada à família que a criou. Assim, alguns fantasmas do passado estão à espreita da tradicional (quem diria) Família Addams.

Reprodução/Universal Pictures

O elenco de peso parece se divertir

Apesar de a história se estender mais do que consegue suportar, este A Família Addams 2: Pé na Estrada parece encontrar o equilíbrio em um ponto fora da curva: o elenco se diverte com seus respectivos personagens. Assim, ouvir Charlize Theron como a gélida Mortícia é engraçado por si, e o mesmo vale para o propositalmente caricato Oscar Isaac, que faz de Gomez um romântico inveterado. Enquanto isso, Chloë Grace Moretz aproveita seu repertório de personagens igualmente peculiares para encarnar Vandinha, e até mesmo Bette Midler está fora do comum em uma ponta bem divertida.

É uma pena, então, que esta sequência não consiga trazer o mesmo frescor ou até certa autenticidade à história, pois infelizmente parece uma colagem de filmes norte-americanos dos anos 1980 e 1990, sem aproveitar da nostalgia que isso traria, e sim pautando todo o roteiro de Dan Hernandez, Benji Samit, Ben Queen e Susanna Fogel na oportunidade de levar os personagens clássicos a diferentes ambientações, mas isso acabou infantilizando demais a história, e perdendo o ritmo necessário para funcionar – e, diga-se de passagem, o ritmo é essencial para manter os mais novos ligados.

Reprodução/Universal Pictures

Ironicamente anêmico

A Família Addams 2: Pé na Estrada é a sequência que chegou tarde demais para encantar, e cedo demais para mostrar-se necessária. Desta forma, ainda que conte com momentos engraçados, eles são isolados e parecem não compactuar com a história vista em tela. Com isso, o filme mais uma vez se transforma em uma colagem, que poderia ser resolvida com dois ou três curtas.

O resultado, portanto, é uma experiência frustrante, ou no mínimo morna, e se tem algo que foi trazido à tona pela Família Addams é a imposição contra tudo o que é morno ou “normal”. Talvez revisitar os filmes dos anos 1990 ou a série clássica seja a melhor opção para trazer de volta o espírito maligno dos Addams. Enquanto isso, esta sequência apela para o pop até mesmo em sua trilha sonora. Um sacrilégio.