Crítica | A Barraca do Beijo 3

Denis Le Senechal Klimiuc  - 29 de setembro 2021 ás 12h00

A febre de filmes infantojuvenis dominou as décadas de 1980 e 1990, quando essa fase da vida finalmente foi bem explorada pelo cinema, em particular o norte-americano. Alçando voos mais longos e aproveitando a boa fase nostálgica, a Netflix trouxe uma trilogia que tanto conversou com a turma daquelas décadas, quanto com a atual geração de adolescentes. Agora, foi a vez de encerrar esse diálogo, ou ao menos é o que fez com este “A Barraca do Beijo 3” (2021).

Agora acostumada à ausência de seu namorado, Elle (Joey King) está no último ano do ensino médio e precisa se decidir para onde vai: Berkeley, seguindo o sonho desde pequena, e o combinado com seu melhor amigo, Lee (Joel Courtney), ou correr atrás de outro sonho: Harvard e seu namorado, Noah (Jacob Elordi). Indecisa, sobretudo porque ficou na lista de espera, e porque precisou trabalhar para se manter, Elle recebe uma triste notícia: a casa de verão da família Flynn vai ser vendida e, com ela, todas as lembranças, inclusive de sua falecida mãe.

Com isso, ela, Noah, Lee e sua namorada, Rachel (Meganne Young) conseguem organizar tudo para passar aquele último verão juntos, e o problema começa a acontecer a partir do momento em que cada um está com uma expectativa a respeito das últimas semanas juntos, e do que virá a seguir.

Reprodução/Netflix

O reencontro dos (não tão) jovens

Agora, Noah é adulto e universitário em seu segundo ano, e os problemas de Elle, Flynn e Rachel já não são mais os mesmos. A adolescência está se despedindo da turma, e eles precisam lidar com os novos pesos de suas vidas, e alguns têm mais responsabilidades do que outros, o que causa ainda mais conflitos nesta despedida tortuosa. Com isso, o espectador vai acompanhar uma série de pequenos arcos conflituosos, enquanto o tempo passa e a turma mal vê que está desperdiçando a oportunidade de aproveitá-lo.

Com isso, este último filme de uma trilogia que começou lá atrás como um dos grandes sucessos recentes do streaming, infelizmente perde boa parte de seu encanto ao não encontrar o ritmo certo para a história que quis contar. Assim, o roteiro de Vince Marcello e Jay S. Arnold erra ao não criar o clima de despedida em todo o arco principal, e sim ao apenas explorá-lo em seu terceiro ato, a conclusão. Com isso, os personagens ficam confusos e, em diversos momentos, há repetição de conflitos pelos quais o espectador já passou nos filmes um e dois.

Em consequência, este “A Barraca do Beijo 3” é um tanto quanto anêmico em relação aos demais, o que é uma pena, tendo em vista o tamanho do potencial desperdiçado por ser a conclusão e, por isso mesmo, trazer mais momentos genuinamente divertidos. Não que eles não existam, mas não são fortes o suficiente para apagar as intrigas irritantes entre Elle e Noah.

Reprodução/Netflix

Quando o futuro insiste em bater à porta

Felizmente, Joey King é hábil ao conseguir segurar sua protagonista, que sofre com o roteiro, mas conta com uma intérprete versátil, que a deixa quase equilibrada entre seus erros insistentes e os poucos acertos. Por sua vez, Joel Courtney é relegado a coadjuvante de luxo, e seu arco pouco importa para o filme em si, mesmo que esteja passando pelo processo de despedidas também, mesmo que a tal casa à venda seja de sua família.

Aliás, a casa poderia ter sido mais explorada, já que ela é pano de fundo para a turma passar o verão por ali, e há um momento particularmente tocante, com a transformação daquele lar através das lembranças de Elle, que dizem muito mais do que o restante do filme, e, se tratando de uma conclusão, poderia ter aproveitado essa premissa, já que a explora em tela, para estendê-la como arco principal.

Com isso, nem Meganne Young ou sequer a participação de luxo de Molly Ringwald surtem qualquer efeito, e é uma pena, também, que os demais estudantes, tão presentes no primeiro (e melhor) filme, são quase que completamente esquecidos. Por isso, o que este “A Barraca do Beijo 3” poderia ter se transformado, acabou ficando apenas na promessa. No final das contas, é um filme aborrecido e burocrático, com excessos de formalidades e pouco sentimento.

Reprodução/Netflix

Apesar da despedida, é um final morno

Assim, o clima de despedida está presente, e ele faz parte de forma sutil, principalmente no final do segundo ato. Por sua vez, há um final anticlimático que faz com que este filme lembre o final melodramático de uma novela de Manoel Carlos, e definitivamente essa intenção não faz sentido diante do original.

Por isso, se há alguém disposto a chegar ao final do filme feliz, é recomendável que aproveite a nostalgia do primeiro filme, e a vaga lembrança com a presença de Ringwald neste longa, para voltar ao passado e curtir, por exemplo, “O Clube dos Cinco” (1985) ou “Curtindo a Vida Adoidado” (1986), os quais trazem excelentes roteiros, dramas genuínos e aventuras hilárias. E são naturalmente nostálgicos, sem forçar a barra, é claro.