Crítica | 7 Prisioneiros

Denis Le Senechal Klimiuc  - 16 de novembro 2021 ás 12h00

Existem algumas realidades no mundo que custam a serem encaradas de frente pela sociedade, e uma delas é a condição análoga à escravidão que assombra o planeta em suas raízes capitalistas. Constantemente são descobertos pontos de fabricação de bens duráveis (ou não), cuja mão-de-obra é completamente escravizada. Porém, ainda que o absurdo reine esse assunto em pleno século XXI, pouco se fala sobre. Felizmente, o cinema entra nessas lacunas não só para apresentá-las, como também para discuti-las e quebrar certos tabus. Essa é a função deste 7 Prisioneiros (2021), da Netflix.

Dirigido por Alexandre Moratto, o filme é basicamente uma história moderna sobre como as relações de poder são formadas pelos humanos desde sempre: os mais fortes escravizam os mais fracos, e os benefícios tirados disso alcançam uma parcela da população que prefere permanecer ignorante. Aqui, porém, tudo é reduzido a um micro universo para que o espectador compreenda a situação de forma mais próxima, quase como se um conhecido pudesse passar por tudo o que o longa apresenta. E o diretor, responsável pelo excelente Sócrates (2018), se esforça para entregar algo cujo resultado é tão cruel, mas ao mesmo tempo não.

Isso porque o filme é hábil ao apresentar ao protagonista logo nos primeiros minutos, e assim Mateus (Christian Malheiros) ganha vida. Vivendo com sua família como o único representante do sexo masculino na casa, o que simbolicamente faz dele o responsável pelo trabalho braçal, tudo o que quer é que sua mãe e suas irmãs tenham uma vida melhor. Em sua cidade-natal, no interior de São Paulo, ele não enxerga nenhuma oportunidade melhor e, por isso mesmo, aceita um emprego na capital paulista. Junto de outros rapazes de sua cidade, vão de van até o local, um ferro-velho, cujo dono prometeu salário bom, acomodação e refeição.

Reprodução/Netflix

A realidade é avassaladora

Quando Mateus e os demais chegam ao local, porém, as coisas não são bem o que parecem, e aqui está o momento em que 7 Prisioneiros agarra o espectador. Recebidos por Luca (Rodrigo Santoro), os rapazes logo percebem que estarão ali por muito mais tempo do que gostariam, pois as condições são precárias, a alimentação é pobre, a higiene não existe e eles não podem ir para a rua em momento algum. Com o valor que suas famílias receberam, eles só poderão ir embora quando pagarem suas dívidas, o que inclui a alimentação diária e o colchão maltrapilho. Ali, então, em um ferro-velho qualquer dentro da cidade de São Paulo, aquele grupo de sete prisioneiros se encontra na mesma situação que tantas outras pessoas Brasil afora.

Tudo o que o filme faz, porém, é construir uma enorme ratoeira na qual a vítima é o espectador, porque, até certo ponto, a construção daqueles personagens é feita de forma visceral, afinal, são seres humanos descobrindo que a própria existência está ameaçada. Mas, aos poucos a relação entre Mateus e os demais muda, justamente a partir do momento em que ele começa a dar outros passos para conseguir sua liberdade, e percebe que o que está por trás de Luca é muito mais sério e profundo do que seus atos cruéis.

Ao fazer isso, então, este 7 Prisioneiros torna a reflexão gradativamente mais profunda. Porém, o que mais surpreende é como o roteiro do próprio Moratto e de Thayná Mantesso consegue transformar uma realidade dentro de outra, quase que de forma onírica, mas aqui voltada ao pesadelo completo. Por sua vez, o que também ajuda na construção da dinâmica entre os personagens é a excelente fotografia de João Gabriel Queiroz, pois ele transforma um local aparentemente caótico, como o ferro-velho, em um labirinto no qual cada cômodo é uma etapa a ser enfrentada e ultrapassada – e a saída está logo ali, a poucos metros, mas mais próximo está o revólver de Luca.

Reprodução/Netflix

Como o roteiro de 7 Prisioneiros engana

Quanto mais Mateus se relaciona com Luca, mais ele percebe que aquele monstro é, também, um agente que reproduz o que lhe é designado. Existem hierarquias dentro desse mundo hediondo, e Luca consegue perder camadas de crueldade à medida em que deixa o protagonista entrar em sua rotina e, principalmente em sua vida fora dali. E o que acontece em seguida é uma dinâmica tão real quanto intrigante, pois os demais prisioneiros são transpassados a outro patamar, ainda mais baixo, enquanto Mateus conhece de perto um mundo no qual o poder faz parte dos negócios, e os seres humanos mais vulneráveis são a mercadoria.

Dentro do pano de fundo que é São Paulo, mas que poderia ser qualquer cidade do mundo, aquele submundo é desenvolvido a todo vapor. Os produtos, aliás, são os fios que estão nos postes públicos, as roupas que as pessoas encontram a preço de banana, ou os calçados que copiam a marca mais famosa do momento. Em galpões escondidos, mas a poucos metros de calçadas movimentadas, estão imigrantes ilegais, ou brasileiros de outros locais – todos seres humanos que acreditaram ir para oportunidades melhores.

E o mais intrigante e assustador disso tudo é a forma com a qual o filme se posiciona, e sua principal qualidade: a grande questão é que o poder é resultado de dominação, e alguém precisa ser dominado. Aliás, os nomes de todos os principais personagens são bíblicos, e isso evidencia o quanto a escravidão é inerente à raça humana, sobretudo àqueles que, como este filme bem demonstra, acreditam em um salto na qualidade de vida.

Reprodução/Netflix

Quebrando o tabu

Tudo o que 7 Prisioneiros faz é esclarecedor, mas alguns de seus detalhes são subversivos, pois, infelizmente, conversar sobre a atual situação de pessoas em condições análogas à escravidão é algo que permeia a margem social. Desta forma, esta obra levanta tanto esse questionamento, e do que pode ou não ser feito, quanto também indica que o buraco é muito mais embaixo. A partir do momento em que um homem faz o outro alguém submisso, há abuso de poder, e ele está presente em diversas relações sociais e profissionais.

E mais: o filme converte o espectador mais incrédulo, pois toda a sua narrativa é feita com base em uma situação simples, como a dinâmica entre Mateus e Luca. Portanto, é digno de aplausos ao quebrar determinados tabus sem jamais soar panfletário, ou muito menos demagogo. O sentido aqui é fazer o espectador segurar-se na poltrona do início ao fim, e o caminho incomum tomado pelo longa é a prova de que certos clichês, quando evitados, deixam o resultado ainda melhor.