Crítica | 007 – Sem Tempo Para Morrer

Denis Le Senechal Klimiuc  - 30 de setembro 2021 ás 14h00

Quando 007 – Cassino Royale (2006) chegou aos cinemas, marcando o primeiro James Bond verdadeiramente loiro, por incrível que pareça seus aspectos físicos chocaram mais do que o fato de aquele ser um agente “porradeiro”, menos glamouroso, mas, ainda assim, charmoso o suficiente para seduzir as mulheres ao seu redor. De lá para cá, muito mudou na cultura pop, a não ser o puritanismo em relação ao lado fã, que continua não aceitando diferenças do que supostamente seus personagens favoritos possam ou devam ser. Com este 007 – Sem Tempo para Morrer (2021), não será diferente.

Isso porque os quinze anos que separam um filme do outro fizeram toda a diferença para a franquia, que finalmente pareceu compreender um pouco mais o que significa carregar o símbolo de 007: muito mais do que um gênero, mas sim a responsabilidade de representar a coroa britânica e protegê-la – salvar o mundo é apenas consequência. Por isso, mesmo que o filme tenha sido lançado meses após o planejado, por conta da pandemia de Covid-19, o resultado é surpreendentemente essencialista.

Ou seja, aqui está um filme de James Bond com tudo o que ele tem direito, inclusive pontos fracos, o que o torna um capítulo dentro da regra, e não uma exceção, como 007 – Operação Skyfall (2012) foi. Com isso, seja qual for a expectativa de quem assistir a este filme, com certeza a pessoa será impactada por um filme de quase três horas de puro entretenimento ao melhor estilo de Sean Connery, Roger Moore, Pierce Brosnan e, agora, Daniel Craig.

Crítica | 007 – Sem Tempo Para Morrer
Reprodução/Universal

Daniel Craig se entrega de corpo e alma em sua despedida como 007

A despedida estava anunciada há tempos: o 25º filme da franquia marcaria a despedida de Daniel Craig de seu papel mais icônico até então. E ela está lá, dentro de toda a sua entrega como o espião mais famoso do mundo, com toda a pompa, classe, sarcasmo e charme que o ator construiu, à sua própria maneira, para encarnar o personagem de forma diferente. Se quando foi escalado muita gente virou o olho, hoje é possível dizer que ele é um dos melhores intérpretes da criação de Ian Fleming, e o que menos importa são suas características físicas, e sim a representação que ele dá.

Desta forma, Daniel Craig se entrega de corpo e alma, e a sua presença em tela é simplesmente magnética, ainda que tenha de dividi-la com o elenco de peso com o qual contracena, como Ralph Fiennes, Jeffrey Wright, Ben Wishaw, Ana de Armas, Naomie Harris, Léa Seydoux e Christoph Waltz. Vale, aliás, menção honrosa para Lashana Lynch, que carrega a responsabilidade muito bem retratada em tela, e que conta com uma atriz cuja expressão traz o que de melhor tem os filmes do 007: sensualidade e acidez.

Assim, o protagonista passa por diversas etapas, concluindo uma a uma, até culminar no tom claramente de despedida, algo que fará o espectador sentir o peso após o término da sessão, pois, ainda que seja uma franquia, e ainda que nada indique que este seja realmente o fim – dentro de uma perspectiva de cinema, é claro -, existe o peso da conclusão, algo pouco explorado em franquias tão duradouras.

Crítica | 007 – Sem Tempo Para Morrer
Reprodução/Universal

Com elenco estelar, 007 – Sem Tempo Para Morrer peca pelo vilão fraco

Porém, ainda que este filme seja essencialmente uma obra de James Bond, é uma pena que o roteiro de Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge não consiga trazer um vilão à altura, e o caricato Rami Malek mais uma vez não consegue se desenvolver além de seu olhar puramente melancólico, o que causa comparações inevitáveis com os vilões de Mads Mikkelsen e, especialmente, de Javier Bardem, um dos melhores de toda a franquia.

Com isso, o filme perde parte de seu impacto ao trazer um vilão que, aliás, não se mostra sequer ameaçador, o que poderia ser trazido como uma vertente de que, aqui neste capítulo derradeiro, não seria o caso, mas o prólogo diz justamente o contrário. Por outro lado, é o Lyutsifer Safin de Malek que traz o desfecho mais poderoso e perigoso dos cinco filmes protagonizados por Craig. Ou seja, faltou evidenciá-lo – há uma cena, aliás, que demonstra o contrário de forma quase deslocada de todo o filme: o vilão se desprende de um personagem que está sendo ameaçado por ele de forma quase tosca, como se toda a tensão ao redor daquela situação não fizesse a menor diferença.

Então, a busca de James Bond pela aposentadoria é mais uma vez interrompida, e a sua felicidade e paz são colocadas em cheque por um mundo que não aceita a sua ausência. Como um super-herói, ele precisa combater os supervilões, e salvar a coroa britânica é apenas consequência de seus atos, que se tornam sempre globais. Aqui, em uma ironia coincidente, ele precisa acabar com um vírus mortal, criado em laboratório para salvar a humanidade, mas que caiu nas mãos erradas.

Crítica | 007 – Sem Tempo Para Morrer
Reprodução/Universal

Uma despedida que traz a essência de James Bond

James Bond é o tipo de personagem que carrega consigo a simbologia de mais de 50 anos de existência. O peso dessa responsabilidade é enorme, mas Daniel Craig o fez com honra e talento, e se entregou de corpo e alma a um papel previamente interpretado por lendas do cinema. Ainda que ele ainda esteja na metade do caminho para se tornar tão icônico quanto Connery ou Moore, com certeza seus passos jamais serão esquecidos.

Quanto a este 007 – Sem Tempo para Morrer, é o tipo de filme cujo ritmo ao redor de seu protagonista agrada pela altíssima qualidade, tanto técnica quanto narrativa, mas que apresenta seu maior defeito no contraponto, na imagem do vilão. Porém, como um verdadeiro 007, nem sempre o vilão é o ponto forte. Ainda bem que existem outros vinte e quatro filmes para comprovar o argumento e, mais do que isso, mostrar como o mesmo personagem pode ser explorado de diversas formas, e trazer, de acordo com o seu tempo, as mudanças necessárias à cultura pop.