Como Friends ainda atrai uma legião de fãs

Denis Le Senechal Klimiuc  - 02 de junho 2021 ás 12h30

Não tem jeito. O hino pop “I´ll be there for you” ressoa na cabeça de quem curte cultura pop e, para o bem ou para o mal, uma obra é lembrada sempre que as piadas entre amigos surgem: Friends (1994-2004). Mas como um grupo de jovens cujos “white problems” eram recorrentes conseguiu conquistar uma legião tão grande de fãs? E como, em tempos de politicamente correto, isso ainda acontece?

É fato que os criadores, David Crane e Marta Kauffman, não tinham ideia do sucesso que viria com a escolha de seis personagens, sendo três homens e três mulheres, e como isso impactaria anos mais tarde em tantas outras sitcons – formato de série de comédia feita para a TV e que apresenta cenas do dia a dia.

Porém, talvez o que mais tenha chocado os criadores foi o fato de que Friends fez tanto sucesso após seu término quanto durante os dez anos em que esteve no ar. E a vida de Ross (David Schwimmer), Rachel (Jennifer Aniston), Monica (Courteney Cox), Chandler (Matthew Perry), Joey (Matt LeBlanc) e Phoebe (Lisa Kudrow) continua sendo referenciada pelos fãs mais afoitos da série. Por quê, não é mesmo?

Como Friends atrai uma legião de fãs
Fonte: Reprodução/Warner Bros.

Friends se transformou no modelo ideal de amizade e isso faz toda a diferença

Existe a essência e existe a motivação por trás de todo roteirista. E, para uma série durar tanto tempo, nada melhor do que unir a boa ideia à criatividade de uma equipe em ação. Com isso, enquanto seriado, “Friends” trouxe a essência do modelo de amizade ideal, aquele em que todos se respeitam e são transparentes.

Além disso, a equipe garantiu, mesmo com as acelerações de alguns relacionamentos, como a formação do casal Ross e Rachel logo na segunda temporada, pequenos arroubos de criatividade, e outros nem tanto – Joey e Rachel? Como assim?

Com isso, os anos foram generosos para o seriado da Warner, mas, mais do que isso, a época em que foi realizado foi a carapuça que serviu, pois, desde seu término muita coisa mudou, sobretudo como a sociedade enxerga determinadas piadas e opiniões, e como a diversidade faz parte da cultura pop, cada vez mais, como algo fundamental para criar a essência e para ser criativo.

Contudo, se tem algo que fincou Friends no coração de pelo menos duas gerações de geeks é, sim, o modelo de amizade, a genuinidade encontrada em personagens tão bem explorados em um simples encontro no Central Perk, o café de Nova York desejado por 11 em cada 10 fãs.

Como Friends atrai uma legião de fãs
Fonte: Reprodução/Warner Bros.

As acusações de racismo, transfobia e tudo o que representa a nata dos anos 1990

Mas nem tudo são flores na vida daqueles seis jovens de vinte e poucos anos, brancos, héteros e cis, sem credos ou nada a mais para lhe conferirem personalidade. Como você sabe, o mundo girou e não existe amizade de um grupo que não seja minimamente heterogênea. E isso não aconteceu aqui.

Porém, o que chamou a atenção e pesou nos novos tempos foi a quantidade de piadas relacionadas a sexualidade dos personagens, seja a pautada na identidade ou na orientação. Desta forma, além de contar com falta de diversidade, a representatividade, presente em algumas outras séries de sucesso da época, como Will & Grace (1998-2020) e Um Maluco no Pedaço (1990-1996).

Então, o olhar sobre Friends nos tempos modernos não é tão leve quanto o seriado sugeria em sua época. E transformar a série em mártir do desrespeito, tampouco, é a solução. Apesar dos desequilibrados torcerem para que tudo se exploda, vale lembrar que cada produto cultural é uma representação de sua época e, como tal, ele deve (e merece) ser enxergado com as respectivas ressalvas.

Como Friends atrai uma legião de fãs
Fonte: Reprodução/Warner Bros.

Os coadjuvantes de ouro e os convidados de peso

Jon Favreau, Hank Azaria, Tate Donovan, Anna Faris, Bruce Willis, Kathleen Turner, Reese Whiterspoon, Gary Oldman, Sean Penn, Alec Baldwin, Julia Roberts, Isabella Rossellini, Winona Ryder, Susan Sarandon, Jennifer Coolidge, Jeff Goldblum, Danny DeVito, Billy Crystal, Robin Williams e Brad Pitt.

Pronto, aqui estão alguns dos coadjuvantes de ouro que participaram do seriado, seja por uma ponta ou por um personagem um pouco maior, todos fizeram parte do panteão que tomou conta dos 236 episódios e que, de uma forma ou de outra, tornaram suas participações ainda mais especiais pelo que representavam.

Afinal, como ignorar o episódio especial do Super Bowl em que Julia Roberts aparece como uma antiga colega de Chandler, sendo que ambos os atores tiveram um rápido caso à época? Ou melhor: como esquecer do episódio de Ação de Graças em que Brad Pitt interpreta o ex-colega de Ross, Monica e Rachel, sendo ele nada fã desta última, responsável por seus piores momentos de bullying?

Os coadjuvantes fizeram parte de Friends como um de seus pilares de sucesso, algo cada vez mais valorizado dentro da cultura pop à medida em que os anos passam, e as histórias de suas respectivas participações vêm à tona – Bruce Willis topou participar porque perdeu uma aposta para Matthew Perry. Impagável!

Fonte: Reprodução/Warner Bros.

Como o reencontro foi agendado após tantos anos e a aceitação do elenco

Friends acabou exatamente dez anos após seu início, em 2004, e, de lá para cá, o mundo mudou bastante. Há quem considere o seriado simplesmente piegas, e está tudo bem; e há os detentores da tocha de uma inquisição que julga além da passagem do tempo, como se o sucesso deste fosse um crime, em sua época, diante de tudo o que fez de errado.

Mas, ainda que nem todos sejam fãs de Friends, é admirável como o elenco passou anos, entre idas e vindas de outras obras, para chegar a 2021 em um especial que os reúne finalmente. Há tempos isso é esperado, e a expectativa dos fãs só aumentou com a chegada de outros especiais e ressuscitações pautadas na nostalgia.

Em 2016, houve uma homenagem a James Burrows, exímio diretor televisivo que, naquele ano, havia completado nada menos que mil episódios dirigidos em sua carreira. Em um palco, havia um quinteto batendo papo sobre sua experiência com o diretor, que foi responsável por 15 episódios da série de Crane e Kauffman. A exceção era Matthew Perry, que estava em Londres apresentando uma peça escrita, dirigida e interpretada por ele.

Apesar de não ser uma reunião oficial, foi o suficiente para acender a chama do mais louco fã – e do menos também. Ali o sonho ganhava uma imagem e, se não fosse pela pandemia do novo coronavírus, isso teria acontecido ainda em 2020. Mas o tempo passou e, 17 anos após o final da despedida do apartamento da Monica, Friends: The Reunion (2021) chega ao streaming HBO Max.

Fonte: Reprodução/Warner Bros.

A receita do sucesso ganha espaço com a potência da nostalgia

O episódio especial, que conta com a participação especial de diversos ex-integrantes do elenco de coadjuvantes, além de celebridades em intervenções especiais, ganhou o mundo no final de maio deste ano, e, como os dez anos de conteúdo que o precederam, fez com que o poder da nostalgia fosse exaltado mais uma vez.

A receita do sucesso de Friends é simples, mas poucas vezes conseguiu ser copiada à altura: amizade genuína, elenco perfeitamente afinado, tempos bons e ruins misturados às participações especiais e, jogando tudo isso no liquidificador, sobre justamente a nata dos anos 1990: a nostalgia em estado puro.

Por isso, hoje o seriado atrai uma legião de fãs por ser, sobretudo, aquele que não tenta ser mais do que verdadeiramente é: uma reunião entre amigos, um bate-papo para um café.