Cinemateca: a queima do acervo e da história do cinema brasileiro

Ana Maria Guidi  - 19 de agosto 2021 ás 16h00

Há exatas três semanas, no dia 29 de julho, um noticiário tomou conta das manchetes: queimava um galpão da Cinemateca, a mais importante instituição de conservação do audiovisual brasileiro.

Fotos das labaredas e da fumaça que envolvia o acervo invadiram as redes sociais, cerca de 400 metros quadrados se transformavam em cinzas. O fogo consumia três salas que abrigavam arquivos históricos, cerca de quatro toneladas de documentos.

As pessoas lamentavam as perdas irremediáveis: carbonizava não só a Cinemateca, mas uma parte relevante do acervo cultural e histórico brasileiro.

Mas, afinal, o que é a Cinemateca?

A Cinemateca é uma instituição responsável pela conservação, restauração e difusão de toda a produção audiovisual brasileira. Localizada na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, a instituição possui o espaço aberto ao público, além de um galpão de armazenamento, na Vila Clementina, zona oeste – local atingido pelo fogo.

Considerado o maior acervo de audiovisual da América Latina, a Cinemateca Brasileira tem um patrimônio de mais de um milhão de documentos dentre filmes, fotos, roteiros, revistas, cartazes e livros que contam a história da cultura audiovisual do país.

Assim, podemos considerá-la um grande polo da cultura brasileira que abriga não só o passado, como também o presente e o futuro.

Isso porque, até hoje, todos os filmes produzidos a partir de recursos públicos – como leis de incentivo, por exemplo – entregam uma cópia de sua produção para o acervo, reunindo mais um trecho da composição histórica preservada.

Fachada da Cinemateca (Divulgação/Cinemateca)

E qual a sua história?

A Cinemateca surgiu por volta de 1940, durante o Estado Novo, no formato de um clube de cinema criado por estudantes de filosofia da USP. O modelo proposto, entretanto, foi logo reprimido pelo órgão de censura estatal da época de Getúlio Vargas.

Seis anos depois, entretanto, a ideia vingou: oficializada por lei, surgia o Clube de Cinema de São Paulo. Em 1946, a Cinemateca, no formato de Filmoteca, se associou ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde funcionou por cerca de sete anos.

Somente em 1984 a instituição foi incorporada à máquina pública e, apenas em 2003, ao Ministério da Cultura. Em 2018, a gestão da Cinemateca foi repassada para a Associação Comunicativa Roquette Pinto (Acerp), que ficaria responsável pela instituição até 2021.

Com o fim do contrato com a Acerp, a Cinemateca caiu num limbo administrativo. Esse fator foi, assim, um dos principais responsáveis pelo incêndio: sem administração, a instituição começou a enfrentar faltas ainda mais graves de recursos financeiros.

E quais as consequências da falta de investimento?

Administrar um acervo com tantos produtos, sem dinheiro, é por si só um desafio. Isso se torna ainda mais grave se esse acervo for formado por produtos altamente inflamáveis, como é o caso da Cinemateca.

Rolos de filmes antigos são feitos de nitrato de celulose, um material que deve ser mantido em salas sem instalações elétricas pois são passiveis de combustão espontânea (quando um material queima sem a necessidade de aplicação de fontes inflamáveis).

Assim, para garantir que todo esse acervo se mantenha em segurança, é preciso mão de obra, avaliações periódicas, temperatura correta, ou seja, é preciso investimento – o que a Cinemateca já não via há tempos.

O incêndio, inclusive, não foi o primeiro que a instituição enfrentou. Nos seus 74 anos, a Cinemateca já sofreu quatro grandes incêndios que destruíram um número incalculável de obras.

E não é preciso falar que, diante de toda realidade financeira da instituição, a digitalização de todos esses filmes não cabe no orçamento, certo?

Rolos encontrados após incêndio (Divulgação/Corpo de Bombeiros PMESP)

O que perdemos com o incêndio?

Dimensionar o tamanho da perda com o incêndio é um desafio. Isso porque, a perda não é apenas material, mas também cultural e histórica; perderam-se mais de 60 anos de história, de memória pública, de cinema – elementos imensuráveis.

O inquérito ainda não foi concluído, mas o coletivo de Trabalhadores da Cinemateca, grupo formado por funcionários, pesquisadores e cineastas, estimou uma perda gigantesca de quatro toneladas de documentos, equipamentos e rolos de filmes 35mm nacionais e internacionais.

A lista, divulgada pelo coletivo nas redes sociais, inclui grande parte de arquivos de órgãos já extintos, como documento da INC, Embrafilme e Concine.

  • INC (Instituto Nacional de Cinema): fundado em 1966, era um órgão subordinado ao Ministério da Educação e Cultura com o objetivo de estimular as atividades cinematográficas do país. Foi extinto em 1975.
  • Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes): entre 1969 e 1990, a empresa mista estatal, criada em apoio ao INC, colocou cerca de 200 filmes brasileiros no mercado, dentre eles “Dona Flor e seus Dois Maridos”, o maior sucesso de bilheteria brasileiro até 2010.
  • Concine (Conselho Nacional de Cinema): outro órgão publico responsável por gerir o cinema brasileiro e que veio com o objetivo de substituir o INC. Foi criado em 1976 e extinto cerca de 15 anos depois.

Também foram afetados os acervos de Glauber Rocha e da Pandora Filmes:

  • Glauber Rocha: um dos maiores cineastas do Brasil, Glauber Rocha foi um dos pioneiros do movimento intitulado Cinema Novo. De acordo com pesquisadores, no acervo que queimou constavam recortes não digitalizados de artigos nacionais e internacionais, além de críticas e outros documentos exclusivos do cineasta.
  • Pandora Filmes: uma distribuidora de filmes independentes presente no Brasil há mais de 30 anos, a Pandora Filmes reuniu, ao longo dos anos, produções que incluem nomes renomados e novos talentos.

De acordo com o diretor da Acerp, no acervo ainda estavam documentos e produções do Canal 100 e TV Tupi, negativos do curso de Cinema da USP, além dos primeiros equipamentos cinematográficos que vieram para o Brasil

  • Canal 100:  um cinejornal fundado em 1957 cujo objetivo era produzir e exibir documentários ligados ao futebol e outros eventos esportivos. O canal foi responsável por reproduzir as primeiras imagens do Pelé e do Garrincha em campo, além de eventos políticos, como a fundação de Brasília
  • TV Tupi: a primeira emissora de televisão do Brasil! Inaugurada em 1950, a TV Tupi não só guardava a narrativa da TV nacional como também seu acervo de equipamentos antigos formavam um grande museu de relíquias.
Bastidores da TV Tupi (Reprodução/Wikimedia Commons)

É por causa desse e de outros fatores que todos que se mobilizaram pelo acontecimento afirmaram que era uma “tragédia anunciada”: sem brigada de incêndio e com um acervo delicado como esse, a Cinemateca necessita muito mais atenção do que recebe.

O fogo levou embora memórias que são impossíveis de se reconstituir.