Blockchain, Criptomoedas e NFTs: Saiba o que são e como funcionam

Fernando Giovanetti  - 27 de outubro 2021 ás 12h00

Como dizia nosso querido Logan, vulgo Wolverine: “o mundo não é mais o mesmo”. E pudera, tudo está em constante mudança (o que nem sempre pode ser chamado de evolução). As novas tendências acabam transformando, permanentemente, tudo o que ela toca e se espalha com grande força.

Uma dessas grandes mudanças, que veio como um tsunami – movido pelos depoimentos, e até promessas, de enriquecimento – sem dúvida é da tecnologia blockchain, que surgiu com as criptomoedas e rapidamente ganhou novas ramificações, como as NFTs e tokens – recentemente, os fã tokens também –, além dos games Play to Earn.

E o que isso tem a ver com o universo nerd? Tudo! Mas é preciso contextualizar algumas coisas.

Eles chegaram aos quadrinhos, games e eSports

Divulgação/Xisde

Recentemente, o mundo dos games teve a notícia de que a Valve, detentora do Steam – a maior loja virtual de games do mundo – baniu os jogos NFT e blockchain da plataforma. Estes jogos oferecem prêmios em “moeda” ou itens que podem ser comercializados via blockchain, ou seja, fora do jogo.

Já a galera dos quadrinhos, ficou chocada com a notícia de que, tanto a Marvel quanto a DC passaram a comercializar quadrinhos clássicos ou raríssimos como NFTs, como foi o caso de edições do Homem-Aranha e da Mulher Maravilha, através de marketplaces próprios.

Já para os eSports, os fã tokens, que chegaram inicialmente aos esportes tradicionais – inclusive no Brasil, como foi caso do Corinthians, já começou a dar os primeiros passos dentro das equipes virtuais, como a Xisde, recentemente.

Onde está o valor nisso?

Reprodução/Freepik

Assim como tudo que conhecemos atualmente que possui altos valores, como por exemplo o petróleo e o ouro, eles têm algo em comum: a finitude. Ou seja, são produtos que não se multiplicam como um arquivo que você simplesmente compartilha ou usa um “Ctrl+C e Ctrl+V”. Eles possuem uma quantidade limitada e são frutos de mineração.

Grosso modo, o blockchain (que será abordado mais abaixo) digitalizou a mineração e também tornou os itens, seja ele uma arte, uma moeda ou um título, finitos. Não sendo possível que um número ilimitado de pessoas possa adquiri-los, e, portanto, tendo a possibilidade de que se tornem raros (alguns já chegam com este status, de acordo com a oferta, demanda e seu próprio histórico) e, por isso, seu valor aumenta – ou, ao menos, tem potencial para tal.

E, como de praxe, onde há valorização monetária, sempre existem aqueles que sabem fazer disso seu trabalho.

Criptomoedas – o dinheiro virtual

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É claro que o dinheiro como conhecemos, feito de papel e moedas, está desaparecendo. Mas as criptomoedas não entram exatamente neste contexto. Para serem geradas – ou mineradas – elas precisam de horas de processamento de computadores, com equipamentos de ponta e consomem uma energia brutal.

De forma simplificada é um problema matemático que o computador tem de encontrar o resultado e, ao concluir esta operação, o minerador ganha uma fração da criptomoeda.

Mas o valor, neste caso, não está somente no trabalho para ser gerada, mas por ter sido determinado que será um material finito, mesmo que digital. Por exemplo, as Bitcoins – a mais famosa das moedas virtuais –, só poderá ser mineirada 21 milhões de unidades, não mais que isso (essa decisão é tomada no momento da criação de uma moeda, podendo variar este teto para cada ativo diferente).

Sendo assim, a criptomoeda funciona como o dinheiro em qualquer economia: não pode ser criado à revelia pois perde seu valor, e sua aceitação junto às pessoas e empresas não é nada mais, nada menos que uma aceitação coletiva de que aquilo tem poder para realizar atividades comerciais. Ou seja, quanto mais pessoas aceitam a existência e o valor dos criptos, mais ele se consolida.

As criptomoedas são comercializadas através das exchanges, que em inglês significa simplesmente “casa de câmbio”. Explicando desta forma, desmistifica os tipos de compradores das moedas virtuais, que são exatamente os mesmos de qualquer pessoa que compra dólares, por exemplo: ela pode estar trocando seu dinheiro para utilizá-lo (como se fosse um turista brasileiro indo a um país estrangeiro), para negociar a curto prazo acompanhando a movimentação do mercado (como fazem os traders) ou para pegar a valorização a longo prazo (como fazem os investidores).

E, apesar de uma criptomoeda poder valer uma fortuna, como é o caso de um Bitcoin ou um Ethereum (R$ 361 mil e R$ 23 mil, respectivamente), ainda são produtos extremamente acessíveis, por serem comercializadas em frações. Em algumas exchanges, é possível adquirir criptoativos a partir de R$ 20, independente de qual seja.

NFTs – os produtos digitais

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Diferente das criptomoedas, que são criadas a partir da mineração, as NFTs (non fungible token ou tokens não-fungíveis) são produtos criados do trabalho artesanal. Ou seja, são literalmente todo o tipo de produto que podemos consumir digitalmente: um jogo, uma arte, uma música.

Em contrapartida, a pirataria existe, e é muito forte. Não é difícil ter acesso a uma HQ rara para acessar, exclusivamente, seu conteúdo. O que torna uma HQ caríssima, no mundo offline, é exatamente o produto físico, a prova de que aquele item exclusivo pertence a você.

Neste caso, o sistema blockchain tem a capacidade de validar a originalidade daquele produto digital. Mas ainda assim, uma arte qualquer ou um download de uma música comum, via de regra, não é um produto caro. Mas no caso das NFTs, o que torna os bens adquiridos valiosos, novamente, são sua finitude. Você sabe que está adquirindo um produto original e limitado.

No caso das criptoartes, por exemplo, é como se você estivesse comprando um quadro: você sabe que ele é único, e por isso custa tão caro.

Sendo assim, as pessoas que adquirem as NFTs são tanto os colecionadores quanto aqueles que acreditam no potencial de valorização daquele produto a longo prazo – se o artista, game ou música em questão vir a ser reconhecido, o produto vai se valorizar.

Para este segundo grupo, assim como as criptomoedas, alguns produtos se tornam verdadeiros ativos financeiros, e, desta forma, é possível adquirir somente uma porcentagem dele, que pode ser vendida a qualquer momento por valores sujeitos à variação do mercado.

Blockchain – o cartório digital

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Agora que sabemos o que são as criptomoedas e as NFTs, e falamos basicamente sobre o blockchain, chegou a hora de desmistificá-lo.

O blockchain é, de certa forma, um sistema de registro, como se fosse um cartório ou uma instituição financeira. É lá que ficam os “contratos” ou o “histórico” das negociações e, também, a própria existência das moedas e de seus tokens.

É como se fosse um grande livro da vida daquele produto, e é ele que registra o valor, o portador e as transações, através de uma cadeia de dados.

Tokens – O produto na prateleira virtual

Reprodução/Freepik

Embora seja comum a confusão entre tokens e moedas, é preciso entender que o token utiliza um blockchain já existente que permitam negociação de outros produtos a partir daquela moeda (como o Ethereum, NEO e Waves). Sendo assim, ao “tokenizar” um produto, você vincula aquele bem a uma moeda.

Por exemplo: um criptoartista criou uma obra que será comercializada digitalmente (tokenizada), ele escolhe qual vai ser a moeda em que ele será comercializado. A mais popular, para estes casos, é o Ethereum.

Fã Tokens – A “carteirinha”

Divulgação/Corinthians

Saindo da questão sistêmica e voltando aos produtos, o fã token, que já chegou aos clubes de futebol, e recentemente de eSports, passaram a comercializar este tipo de bem.

É basicamente sua “carteirinha de fã” – e em como todo clube em que você se associa, você recebe benefícios por isso. No caso das instituições esportivas, por exemplo, o portador do token tem direito a votos em algumas decisões da instituição.

Além disso, não fica descartado a visão dos traders e investidores sobre estes produtos como ativos. Pois também são limitados e, por isso, podem variar de preço de acordo com a oferta e demanda. Desta forma, são vistos com potencial de valorização e de possibilidade de retorno financeiro.

Games Pay to Earn – Jogue e ganhe e o caso Steam

Trailer de Star Atlas, jogo Play to Earn

Comercializar itens dentro de um jogo por dinheiro real sempre foi uma prática comum no mundo todo. Entretanto, não é segredo que é uma atividade completamente desaprovada por desenvolvedores. Você pode chamar isso de hipocrisia ou política de segurança, mas é o cenário em que estamos inseridos.

Mas, recentemente, um grande número de jogos passou a oferecer uma sugestão contrária ao tradicional pay-to-win (pague para vencer), que é o play-to-earn (jogue para ganhar – no sentido monetário). Através da cadeia de blockchains, estes games oferecem prêmios tokenizados ou frações de criptomoedas, dando ao jogador ganhos que podem ser valiosos tanto dentro do jogo como fora dele.

A raridade dos itens, neste caso, nada difere dos jogos comuns – mesmo na conversão do digital para o dinheiro real. A diferença, é que, neste caso, o comércio fora do jogo acaba por ser incentivado pela desenvolvedora.

É claro que, seguindo a política das desenvolvedoras tradicionais, a Steam baniu estes games. Mas ao contrário dela, a Epic Games deixou as portas abertas, desde que não se envolvesse com o “mercado”.

Antes de você me deixar…

Apesar de este ser um artigo focado em desmistificar cada um destes termos, são necessárias algumas informações extras.

É preciso compreender que os criptoativos, por serem descentralizados, ainda não são totalmente seguros economicamente. As flutuações do mercado sobre os valores são extremamente mais voláteis, já que, ao contrário das bolsas de valores, as negociações funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, de forma mais unificada e globalizada do que os ativos tradicionais.

Além disso, por não ter muitas regras, é muito fácil o mercado ser manipulado, algo que não acontece nos ativos tradicionais por uma série de legislações. Como foi o caso do Elon Musk, que comprou bitcoins e, em seguida, postou em seu Twitter, aquecendo o mercado, trazendo uma valorização absurda para seus ativos e para o mercado de criptomoedas como um todo, , levantando a discussão sobre a facilidade de manipulação.

O armazenamento dos bens adquiridos através do blockchain também deve ser cauteloso. Apesar de serem virtuais, eles são como as antigas ações “ao portador”. Desta forma, existem uma infinidade de maneiras de armazená-los, seja em carteiras digitais, discos físicos e outros. E isso também tem risco: caso seja perdido o dispositivo físico, ou não conseguir recuperar uma senha de acesso, por exemplo, você perde seus bens.

Por fim, agora que já explicamos os principais pontos do universo do blockchain, também é importante frisar alguns danos que eles vêm causando na sociedade, como, por exemplo, a quantidade de energia para serem criadas, afetando diretamente o meio ambiente.

Assim como alguns grupos, como o Burned Picasso, que, em nome de imortalizar as obras do artista espanhol no universo dos blockchains, queimaram um de seus quadros e, em seguida, o venderam tokenizado no formato NFT (uma prática comum com artigos criados inicialmente fora do mundo digital, e que, ao serem vendidos via blockchain, tem de serem destruídos para manter a exclusividade do produto a quem o adquiriu). O caso resultou em uma perda irreparável no patrimônio cultural da humanidade.

Desta forma, é necessário refletir os caminhos que esta tecnologia está levando antes de simplesmente olhar seu potencial de ganhos financeiros.